segunda-feira, abril 17, 2006

Uma Nova Joana Darc?

Será o que a França procura para socorro dos seus males?


Ou uma nova cara para a Marianne, a tradicional incarnação simbólica da República Francesa?
Ségolène Royal poderá vir a ser a escolhida pelo povo, para essa representação simbólica da mãe pátria, simultaneamente enérgica, guerreira, pacífica, protectora e maternal, que os republicanos franceses sempre associaram a Marianne?
É uma mera possibilidade.
Mas já pareceu mais inverosímil do que parece hoje.





Entretanto, a direita francesa também parece atenta a esta possível viragem cultural na preferência popular sobre os candidatos às presidenciais de 2007, e vai começando a sondar o terreno, com este rosto feminino das fileiras do RPR.

Trata-se de Michéle Aliot-Marie, actual ministra da Defesa.
A direita começa a tentar lançá-la no jogo das "candidatas a candidatas", com argumentos nem sempre felizes. Como este:

Será mesmo este modelo da "dama de ferro" gaulesa que a França precisa?

Parece-me muito duvidoso.

E que temos nós com isso ? - poderá perguntar alguém.

A nossa história ensina-nos que muito daquilo que começa em França acaba por chegar a Portugal.

E a falta de uma candidata feminina, nas últimas presidenciais portuguesas, pareceu-me uma lacuna cultural evidente, que, na altura própria, salientei.

sexta-feira, abril 14, 2006

Morte, Eis a Tua Vitória!



Quando não roubas apenas a alma,
Mas também não deixas resgatar o corpo…

Morte, eis aí a tua vitória.

Quando recusas aos homens,
aquilo que até os deuses sempre desejaram:
deixar o corpo na terra dos homens.





Morte, eis aí a tua vitória!


Quando não és apenas o final
de uma vida que completou o seu curso,
Mas a interrupção
de uma vida em percurso.

Morte, eis aí a tua vitória!

Quando ninguém te espera,
Ninguém te suspeita,
Ninguém te adivinha
Nos sinais da vida
De quem ainda está vivo.

Morte, eis aí a tua vitória…

Quando deixas para os velhos
o dever de chorar os novos,
E negas aos novos
o direito
a serem velhos.

Morte, eis aí a tua vitória…

Quando não roubas apenas a vida a quem matas,
Mas matas a vida a quem continua a ter de viver.

Morte, eis aí a tua vitória…

Quando a marca da tua passagem
não pode, nunca, ser contida
no ritual dos dias de luto.

Morte, eis aí a tua vitória…

Quando poupas a vida a alguém,
Que preferia a morte
à vida que lhe poupas…

Morte, eis aí tua vitória…

Quando,
tu,
cega ceifeira
das sementeiras da vida,
fazes ruir,
não o passado,
mas o futuro,
da vida que roubas.

Morte, eis aí a tua vitória…

Quando,
tu,
a evitada por todo o ser vivo,
te consegues
fazer convidada
de alguém.

Morte, eis aí a tua vitória…

Quando,
tu,
sempre surpresa
para aquele que matas,
ainda és maior surpresa
para aqueles que continuam vivos.

Morte, eis aí a tua vitória…

quarta-feira, abril 12, 2006

Na Politica Italiana e no Xadrez

Quem quiser iniciar-se, ao mesmo tempo, na política italiana e no xadrez, pode tentar começar por aqui.
Proavelmente, chegará ao fim da sua tentativa mais baralhado do que antes.
Poderá perder algum tempo.
Mas ganha, de certeza, agilidade mental.
E pode, igualmente, passar, com muito mais à vontade, deste labirinto político para as tradicionais palavras cruzadas ou o moderno Sudoku.


“Quem vence quem perde

No centro-esquerda, sai vitoriosa a Refundação Comunista, que aumenta o seu resultado total e se impõe como terceira força. À direita, a declaração de vitória mais clara pertenceu à UCD. Dois partidos que são os extremos à esquerda no seio de duas coligações diversas, a vencedora União e a derrotada Casa das Liberdades (CdL). Dos primeiros, que já fizeram cair um governo de centro-esquerda, diz-se que acabarão a fazer oposição ao novo executivo. Dos segundos, fala-se que poderão acabar mais próximos de Romano Prodi, oriundo dos democratas-cristãos, do que de um novo projecto à direita”... [Link]


terça-feira, abril 11, 2006

Entre a Terra e Vénus

Hoje, 11 de Abril de 2006,
a minha escolha é por Vénus.
É verdade que, na Terra, tenho um atractivo especial:
O desenlace da batalha entre os dois "marcianos"da política italiana, chamados Prodi e Berlusconi.
Mesmo assim, vou optar por Vénus.
Mais concretamente pela

Que, sem os habituais espaventos da NASA, consegue, hoje mesmo, uma granda façanha:


Mas, o que é que torna o planeta Vénus tão aliciante?

Tentremos percebê-lo através dos dados seguintes:


Além disso, para nos sentirmos quase como se estivessemos na Mãe-Terra, comparemos Vénus com esta:



Quem quiser continuar a viagem, e em muito melhores condições, pode fazê-lo através desta

infografia

Boa Viagem!

E não te esqueças que

a "Vénus bela(é) afeiçoada à gente lusitana,
Por quantas qualidades vê nela
Da antiga, tão amada sua, Romana:
Nos fortes corações, na grande estrela
Que mostraram na terra Tingitana,
E na língua, na qual, quando imagina,
com pouca corrupção crê que é a latina."

segunda-feira, abril 10, 2006

A Hora de uma morte...anunciada

  • Mais ainda. Morte acompanhada.
    Sim. Não acredito que a CPE vá morrer sózinha.
    Resta saber quem lhe vai fazer companhia no seu triste caixão.
  • O primeiro Ministro? Parece inevitável.
  • A única coisa a que ainda podia aspirar Jacques Chirac? A sombra de alguma dignidade política, quando só lhe restam os juízos da história sobre o seu desempenho como Presidente?
  • Esta maioria, que, de mandato para mandato, repete o mesmo erro. Pretender levar a cabo pequenas reformas "sectoriais," à custa de uma geração ou de um estrato social, sem envolver, nos custos sociais dessas reformas, o conjunto da sociedade?
  • A própria V República, fundada à imagem de De Gaulle e que lhe sobreviveu apenas porque lhe acabou por assumir a herança e o estilo, o anti-gaulista François Mitterrand?


Não sei.


Como certo, fique aqui registada a hora de mais uma vitória da rua sobre a democracia representativa.

E o registo de que, em França, nos últimos anos, estas vitórias se têm sucedido ciclicamente, com governos de direita e com governos de esquerda, sem proveitos políticos ou sociais visíveis para França ou a evolução da democracia.

domingo, abril 09, 2006

Paris, 2006

Mas podia ser
Constantinopla, 1452.
Mas é mesmo, em Paris, 2006, que se discute "o sexo" das palavras que terão o mágico efeito de superar o impasse da CPE, sem custos políticos para ninguém.
O "abre-te Sésamo" é:
Toda a gente percebe a aberração que a palavra representa.
Para a sua pronúncia e, mais ainda, para a sua compreensão.
Mas esta não é uma das características das palavras mágicas?
Faça a experiência.
Diga lá, "abracadabra".
Interessa é que seja dita.
Les mots pour le dire
LE MONDE 08.04.06

© Le Monde.fr

sexta-feira, abril 07, 2006

Dois séculos: As mesmas fronteiras?



Eis uma coisa que se dispensava como característica do século XXI.
Prolongar ou agravar as fronteiras que o século XX criou ou agravou.



O século XX, na Europa,
resolveu contar as liberdades.
Nem do velho ábaco precisou.
A aritmética mais elementar bastou.
Até os dedos da mão sobejaram.
Eram quatro as liberdades.
Liberdade para as mercadorias;
Liberdade para os trabalhadores;
Liberdade para os serviços;
Liberdade para as empresas.
E o século XXI conseguirá,
ao menos,
contar as fronteiras
e conter as fronteiras
que o século XX
mal,
muito mal,
disfarçou,
entre as liberdades,
que, tão parcamente,
catalogou?

terça-feira, abril 04, 2006

Epur si muove III

Pode parecer despropositado continuar agarrado a esta heróica expressão de Galileu, quando ninguém põe em dúvida que o “mundo se continue a mover”.
É verdade.
Mas só em parte.
Para já não falar, nas mil e uma variantes das concepções do “fim da história” ou do “eterno retorno”, que continuam a marcar muitas das ideias correntes sobre a marcha da humanidade, dos povos e dos indivíduos;
mesmo omitindo tudo isto, a verdade é que a conjuntura mundial parece ter sofrido uma rápida aceleração nos finais do mês de Março.
Sem cair num simplismo abusivo, os sinais de mudança parecem ter-se acelerado com o aproximar da primavera.
Exemplos.
Poucos e por grandes panorâmicas. Em voo de Açor.
A América de Sul parece preparar-se para opções decisivas, entre o primário populismo e o caudilhismo puro e duro, e novas experiências de soluções originais pela esquerda do espectro político.
Entre a luta para sair totalmente da sombra do gigante norte-americano (Venezuela) ou equilibrar melhor a sua inevitável relação com ele (Brasil) e a busca de soluções próprias (Chile, Bolívia,) procura-se um novo impulso transformador e reformador para os velhos problemas destes “sulistas” a dobrar (na América do sul residentes, e da Europa do sul, descendentes).
E, talvez, por isso, como eles próprios dizem: Tão longe dos deuses e tão perto dos…Estados Unidos!

George Watts O Minotauro

O curioso também é que, talvez pela primeira vez, além de procurarem soluções novas nos seus próprios países de origem, levam esta mesma vontade política para dentro dos próprios Estados Unidos.
Como se verificou na posição activa que assumiram no debate das recentes decisões norte americanas, sobre a emigração nos Estados Unidos.
No foco de todos os problemas do mundo ocidental – Israel e a Palestina- algo também parece ter mudado. As soluções de força e de predominante cariz militar, aparecem temperadas pela consciência clara da necessidade de soluções políticas, que combinem um grande consenso interno em Israel e políticas de mão estendida, com mais ou menos abertura, para com o povo palestiniano. Este, por seu lado, parece estar cansado de “intifadas”. Talvez por isso, tenha votado no Hamas, para o retirar da rua e trazer para a responsabilidade dos gabinetes ministeriais.
Nos Estados Unidos, não é muito seguro avançar com prognósticos sobre o que está a acontecer ou para acontecer, sobretudo, porque as alternativas de pessoas e de ideias não parecem muito claras do lado da oposição Democrata.
Uma coisa parece certa, porém.
A hora histórica do neo-conservadorismo triunfante, com a sua mistura de angelismo democrático e fundamentalismo religioso, que, entre outras coisas, levou à lamentável aventura do Iraque, parece estar em clara perda de influência e expansão.
E o trauma do 11 de Setembro a caminho da sua superação. O que, a ter êxito, levará a reajustamentos de posições políticas. Na opinião pública, que, nos Estados Unidos, tem mesmo muita força. E nos próprios partidos políticos americanos.

Paulo Veronese O Rapto de Europa

Na Europa, vivemos um momento de regressão.
No sentido de colocar os grandes problemas europeus entre parêntese, e regressar à predominância e preocupação com os problemas de cada país.
A Grã-Bretanha, com a sua histórica atitude distanciada de quem só “suja” as mãos na Europa, quando não consegue continuar a manter a sua auto-suficiência insular.
As duas locomotivas da política europeia, a Alemanha e a França, continuando à procura de saída para os seus problemas internos.
Por vias diferentes.
A Alemanha com a sua atitude histórica costumeira. Só por muito pouco não(?)“sacralizando” quem está no poder e concedendo-lhe carta branca para a procura de saídas para as crises.
A França, fazendo precisamente o oposto.
Contestando, na rua, a capacidade do poder que escolheu para a governar, para introduzir a menor das alterações na situação instalada, mesmo que esta esteja manifestamente desfasada em relação às aceleradas mutações sociais.
E, então, entre nós?
Entre nós portugueses.
E entre nós, açorianos.
Não se passa nada?
Estamos a viver um parêntese histórico?
Em pleno “olho do ciclone”.Onde nada acontece, quando tudo parece rodopiar à nossa volta.
Não. Parece que não.
Há notícias que “Epur si muove”.
Será o tema de próxima entrada.
Até porque esta já nem parece uma entrada.
Já é mais um “corredor”.

domingo, abril 02, 2006

Epur si muove II

Pois é, ela move-se.
Em França, ainda.
E sempre se moveu, em França, sob o signo de duas interpretações.
A do pessimismo.
A da perda do sentido da história.
A do "desarroi" e do "mal-aise", consigo própria e com os outros.
Ora acabrunhada, sob o signo do: "Não, não é nada".
Ou, então, exaltante e exaltada, sob o impulso do :"É tudo! É uma revolta!
É uma revolução!"

Retomo estas duas interpretações, agora, incarnadas em duas pinturas célebres da primeira metade do sec. XIX.
A primeira é do pintor Teodoro Géricault (1791-1824) , que, numa das primeiras manifestações do romantismo, tomou o tema do naufrágio da fragata Medusa, com centena e meia de pessoas a bordo, e lhe deu a expressão de profundo dramatismo e força trágica com os acontecimentos ocorridos na jangada com os náufragos.


A Jangada da Medusa de Teodoro Géricault, (1819)

O seu conteúdo parecia resumir com tal rigor, o fatalismo que, então, politicamente, dominava a França, que o historiador Michelet resumiu assim o seu significado alegórico da decadência do Estado Francês:
"Naquela jangada, Géricault fez embarcar toda a França, toda a nossa sociedade".

Apenas uma dúzia de anos depois, Eugénio Delacroix, também incluía num dos seus quadros toda a sociedade francesa (um operário com a espada, um burguês de chapéu alto, um jovem com duas pistolas), mas avançando, inexorável e heróicamente,comandada pela figura da Liberdade.

A Liberdade Guiando o Povo (1830)
de Eugène Delacroix (1798-1863)

E o signo de hoje, qual será?
O da Jangada destroçada de 1819?
Ou o da Liberdade triunfante de 1830?

sexta-feira, março 31, 2006

Epur Si Muove I

[SCM]actwin,-229,-139,583,473;
 
 31-03-2006 , 11:42:17


Túmulo de Galileu


Continua a ser verdade. Este nosso mundo “move-se”.E, neste final do mês de Março, move-se a grande velocidade.
Vejamos alguns sinais. Longínquos e próximos.


A França continua na rua.
Está-se a tornar num hábito entranhadamente gaulês.
Sabemos todos que a França sempre cultivou esta tradição.
Mas o ciclo parece começar a repetir-se, em vão, cada vez com menos eficácia e menos amplitude e ambição social. Já o foi para as grandes reformas e mudanças do Estado.
Pensá-las nos gabinetes e movimentos de pensamento e reflexão.
Trazê-las para a rua e dirimi-las com as forças do poder político do momento. Depois, mais que aplicá-las, tentar exportá-las.
O que parece é que a capacidade gaulesa para reformar e transformar as suas próprias estruturas sociais e políticas parece cada vez menor.
Há muito que deixou de ter qualquer sentido a frase de Hegel que sentenciava que “os franceses faziam as revoluções que os alemães pensavam”.
Nesta altura, a ideia com que se fica é que:
"Nem fazem, as que outros pensem,
Nem "pensam", as que eles próprios se abalançam a tentar fazer".


Nesta altura, da sua e nossa história, parecem reduzidos ao grau mais baixo do pensamento e da acção.
O grau zero do não.
Não às trinta cinco horas.
Não ao Tratado Europeu.
Não às manifestações sem distúrbios.
Não ao Smic-jovem;
Não ao CPE.
Não às negociações;
Não às condições prévias;
Não ao funcionamento das escolas;
Não a entendimentos suprapartidários;
Não a entendimentos intrapartidários,
que possam ser obstáculos a algumas carreiras políticas pessoais.
Não ao desbloqueio de ruas e vias férreas;


Não...Não…Não…


Em França, “apesar de tudo, o mundo move-se”,
Mas para onde?
[SCM]actwin,10,10,823,365;
 
 31-03-2006 , 11:47:19


David A morte de Marat

quarta-feira, março 29, 2006

Ainda o Dia Mundial do Teatro


Uma Rectificação, Uma Coincidência, Um Contexto



A rectificação é sobre a data da morte, em auto de fé, de António José da Silva. Ela ocorreu a 18 de Outubro de 1739.
A outra data que referi deve-se a um lapso da minha fonte inicial (Mendes dos Remédios), que falava do “dia do seu passamento em 19 de Março de 1739”.
Embora, de seguida, descreva os acontecimentos da pompa do auto de fé de condenação do dramaturgo, como tendo ocorrido em 18 de Outubro.


A curiosidade é que Dario Fo, o outro dramaturgo que evoquei no dia do Teatro, completou 80 anos, no dia 26. Ou seja, no dia anterior, ao dia consagrado ao Teatro.
Como se pode confirmar na sua página pessoal, está de boa saúde e em força no palco das batalhas políticas italianas, para as eleições legislativas do próximo dia 9 de Abril.
A contextualização das atribulações da actividade teatral de António José da Silva e a sua morte trágica às mãos sanguinárias da Santa Inquisição, adquirem uma outra luz, se considerarmos o seguinte texto, do conhecido mestre da língua portuguesa, que dá pelo nome de Pe Manuel Bernardes e que, numa obra contemporânea de todos estes acontecimentos, sobre o teatro, dizia o seguinte:



Como se pode calcular, não é nada difícil, partindo destas muito genéricas considerações, personalizar, em António José da Silva, este diabo que, nas tábuas do palco, tece com tal arte a trama da história, “que a alma gosta do mesmo veneno que está bebendo”.
Daí, a fácil dedução inquisitorial:
António José, Cigarra?!
Talvez!
Cigarra venenosa?
De certeza!
Mas o dia 18 de Outubro de 1739, não terminaria sem mais um desfecho de trágica ironia:
Nessa mesma noite, muitos dos que se tinham associado à sua morte durante as "festividades" do auto de fé, iriam aplaudir o final da sua última peça de teatro, o "Precipício de Faetonte", quando o filho do sol ascende para o Infinito num carro em chamas.

segunda-feira, março 27, 2006

Dia Mundial do Teatro - III

Ainda na sua Esopaída, António José da Silva evoca o destino de Esopo.
Segundo ele, depois de condenado à morte, Esopo pediu para contar uma última fábula.
Então, Esopo teria contado o seguinte apólogo:

Diz a lenda que Esopo foi poupado à morte.
Para António José da Silva não houve fábula que lhe valesse.
A Inquisição não tinha os cuidados do vilão.
Ter António José da Silva aquela voz de cigarra era crime imperdoável.
E não lhe foi perdoado.
Nem sequer tendo em conta a "gravidade" dos crimes de que era acusado.
Um deles era haver "quem o não visse benzer-se depois de comer".
Como se constatou em entrada anterior, Dario Fo tem a grande preocupação de entrosar o teatro com a vida.
António José da Silva teve com o teatro uma ligação ainda maior.
Sacrificou-lhe a própria vida.

Dia Mundial do Teatro - II

O outro nome que desejo recordar, neste Dia Mundial do Teatro, é o do português António José da Silva, o Judeu, como ficou conhecido.
Pois como tal, ou mais rigorosamente, como "judaizante", morreu.
Amarrado ao poste, depois, degolado e, finalmente, queimado.
Em 19 de Março de 1739.
Há pouco mais de 2 séculos e meio.
Em auto de fé, solene, celebrado na Igreja do convento de São Domingos, com todo o aparato e presença dos fidalgos e homens da corte, incluindo o próprio D. João V.
E muita daquela arraia-miuda que, não muito tempo antes, acorria ao Bairro Alto a aplaudir as suas peças.
Acham estranho?
Claro que não é.
Sobretudo, em Portugal, que sempre foi um país de suaves brandos costumes, mais ou menos bárbaros.
É claro que as verdadeiras razões de tão cuel e infeliz destino, apenas aos 34 anos de vida, tinham mais relação com trechos como o seguinte, da sua Esopaida, publicada cinco anos antes, do que com umas vagas acusações de carácter religioso.
Nesta peça, ele escrevia assim, sobre a justiça e os magistrados daqueles tempos:

"Toda a justiça acaba em tragédia".
Como regra geral, parece um mero exagero teatral.
A própria morte trágica do seu autor encarregou-se de comprovar que não se tratava apenas de "exagero teatral".

Dia Mundial do Teatro -I


É com satisfação que, hoje, dedico três entradas ao Dia Mundial do Teatro.
Sobretudo, porque o pretendo fazer evocando dois grandes nomes do Teatro.
O primeiro é o do grande dramaturgo, escritor, actor e animador cultural e político, que é Dario Fo, a quem já dediquei uma anterior entrada.
Por hoje, considere-se apenas a sua capacidade e preocupação constante de fazer a ligação, nos seus espectáculos, entre o teatro e a vida real.
Trouxe-a da sua infância de ouvinte e imitador dos contadores de histórias, que encheram de magia e sonho os primeiros anos da sua vida.


domingo, março 26, 2006

Mas Que Título!!!


(Diario Insular, 23-3-2006)


Há vários dias que trago dentro de mim esta pergunta:



Será este o melhor título para uma notícia em que se pretende apenas dizer:



O Presidente da República nomeia o Juiz José António Mesquita, o primeiro Representante da República nos Açores?



Tenho a consciência que a resposta é muita subjectiva.


Mas também tenho a certeza que há exercício de estilo a mais, e clareza a menos, na redacção deste título.


Além de incorrer em dois erros de palmatória, numa só palavra.
É na palavra “novo”.
Nem o anterior Ministro da República era representante de Belém, mas da República.
Nem o nomeado, é “novo”representante de Belém.
Porque “Belém,”quando muito, pode ser tomado, por metonímia, em vez de Presidente da República, mas nunca em vez de República, de que o nomeado, “José Mesquita,” passa a ser Representante nos Açores.

Questão de palavras, apenas?
Será mesmo?
Sobretudo, quando, aqueles que as usam são profissionais da palavra?
E não é isto mesmo que os jornalistas são?
Ou deveriam ser.


sexta-feira, março 24, 2006

Uma entrada com vergonhosos erros de português?

Nada disto.
Apenas o resultado de um daqueles encontros fortuitos na Internet.
E que me levaram até ao sul de França e ao Languedoc, com estes sons da Provença, que todos nós temos no ouvido, mesmo que tenhamos lido poucas “cantigas de amigo” nos nossos primeiros passos na literatura portuguesa.
É verdade que esta “cantiga” em concreto é mais de “escárnio e mal dizer”.
Mas o nosso português do seculo XII está lá em pleno.



Lo Primier ministre, partisan de la flexibilitat per los autres, deuria començar de se l’aplicar a se-mesma en retirar lo CPE !





Per lo far plejar, participatz a las manifestacions per la retirada deu CPE.

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quinta-feira, março 23, 2006

Algumas reacções iniciais ao comunicado da ETA

El texto y la escenografía del comunicado sugieren una decidida apuesta política de la banda
ETA declara un "alto el fuego permanente" que abre la esperanza a un proceso de paz... [Link]

Para a questão basca, O Futuro Começa Hoje?



O simples facto de, hoje, ser possível fazer a pergunta que serve de título a esta entrada, mostra que o comunicado da ETA, que a seguir se transcreve, na sua versão espanhola, muito dificilmente será superado, hoje, em importância histórica objectiva, por qualquer outro acontecimento.

quarta-feira, março 22, 2006

Os Milagres da Lusofonia

Ou "O Showmício do Garotinho"




Nas minhas deambulações "online", ante ontem,(antes do "crash" total da Telecom) fui surpreendido pela seguinte notícia do "Globo":



Showmício de Garotinho cancela apresentação de Louise Lacavalier no Municipal.



A singularidade da notícia não estava no seu banal conteúdo, de um espectáculo a cancelar outro, mas na designação de um deles como Showmício.
Era um termo que deconhecia em absoluto e cuja formação logo atribuí à ligeireza muito característica, com que os brasileiros lidam com a língua portuguesa.
Mas parti do princípio que seria uma daquelas "liberdades" jornalísticas que, nem os nossos mais "portuguesíssimos" jornalistas da"ocidental praia lusitana", desdenham.
E, que, hoje, são mesmo os principais obreiros daquelas entorses às rígidas regras da formação das palavras da língua portuguesa, que os gramáticos tradicionais designavam por "licenças poéticas".
Não sei se alguém já inventou a qualificação de "licenças jornalísticas" para estas liberdades, por vezes desenfreadas, com que os nossos jornalistas usam (ou abusam) o português, mas, talvez, seja uma ideia aceitável, tentar legitimar, com catalogação ajustada, algumas dessas atrocidades linguísticas, que todos os dias enxameiam o mercado de jornais e revistas.
O que é certo é que, em relação ao showmício, eu estava redondamente enganado.
Fui ao tira teimas do "Houaiss", designação abreviada para o que é considerado,(em 2003, pelo menos,) o dicionário mais completo da língua portuguesa, e tive, não uma, mas duas surpresas.
A primeira, foi verificar que o termo lá está registado e com pleno direito de cidade:



A segunda, foi verificar também que, das três colunas da página em que o termo está registado, duas delas, com cerca de 50 vocábulos, não têm mais do que dois ou três, que consiga reconhecer como portugueses.



Aqui vai uma amostra (embora incompleta) da referida página.



Autênticos milagres do pentecostes
da(s) Língua(s) Portuguesa(s)!

domingo, março 19, 2006

A direita, em Portugal, avança

Num bailado em zig-zag.



O PSD, que não tinha “directas”, faz um congresso extrordinário, para passar a ter “directas”,que exigirão mais um congresso, depois das “directas” que passaram a ter.


O CDS, que já tinha “directas”, avança “directamente” para um congresso extraordinário, para tratar de uma nova doença, que o CDS passou a ter, depois das “directas”que se orgulha de já ter.
Baptizaram-na, cristãmente, de “antagonismo militante”.
Também, cristãmente, MM (Marques Mendes) não entusiasma, mas é poupado a críticas. Violentas.


A direita, em Portugal avança...para o próximo congresso.



CDS-PP
Domingo, 19 Março 2006
Ribeiro e Castro avança para congresso extraordinário
O líder democrata-cristão anunciou este domingo que vai avançar para um congresso extraordinário electivo para «clarificar a situação de antagonismo militante no partido que o tem prejudicado gravemente»
Sábado, 18 Março 2006
PSD consagra directas
A aprovação da eleição directa do líder do PSD é o único marco que fica para a história de um congresso que nunca entusiasmou os delegados e onde Marques Mendes foi poupado a críticas violentas

Um Educador contra o "Eduquês"


Ou a Escola Portuguesa é pré-galilaica?




Nuno Crato: «A escola está muito mal

A vitória de muitos laxismos
na derrota da Escola em Portugal.

sábado, março 18, 2006

Publicidade Aérea...ou Glosa Publicitária

...Sujeita a mote alheio



...E a vossa vida será um céu sem nuvens.

...E o vosso coração subirá aos céus!

...E a vossa vida terá brilho estelar!

...E a vossa vida será um sorriso constante!


O mote tem esta dona.
O banner tem este dono.
O resto - a obra-prima-
é mesmo toda min(h)a!

quinta-feira, março 16, 2006

Uma Pausa para Uma Fábula


Sandro Botticelli (sec. XV)

É sempre oportuno voltar a velhos temas sob velhas formas.
Um velho tema é a compreensão realística e assumida das diferenças.
Uma velha forma é recorrer a uma fábula.
Na fábula, os animais são o pretexto.
Os seres humanos, o objectivo.
Aí vai uma fábula da velha Mesopotâmia.
Donde sempre nos veio (e continua a vir) o melhor e o pior.

Um boi e um cavalo travaram amizade entre si.
As fartas pastagens haviam-lhes enchido os ventres.
E eles descansavam deitados, com alegria no coração.
O boi disse para o cavalo, famoso no campo de batalha:
”Parece-me ter nascido sob bons auspícios.
Encontro comida desde o começo do ano,
Tenho forragem em abundância e água de nascente com fartura…
Muda de vida e vem comigo!”

O cavalo responde:
”A forte chapa de bronze que me reveste o corpo,
Puseram sobre mim e eu a trago por vestimenta.
Sem mim, sem o fogoso ginete, nem rei, nem príncipe, nem nobre se metem a
Caminho…
O cavalo é como um deus avançando majestoso,
Enquanto tu e os bezerros usais o barrete da servidão!”

Arnold Bock (sec. XX)
Ainda um dia hei-de tentar transpor esta fábula
para os tempos que correm.
Alguns milhares de anos volvidos,
a História encarregou-se de subverter
estas condições “naturais” dos animais,
que pareciam imutáveis
e, portanto, exemplares
para os contadores de histórias da velha Mesopotâmia
e para os homens de todos os tempos.
Mas não vai ser hoje.
Hoje, não me sobra tempo nem imaginação.
Vou-me ficar entre os rios.
Como qualquer velhote da antiga Mesopotâmia.
Fingindo que os bois ainda ruminam servidões de fartura.
E que os cavalos avançam, chapeados a bronze, como deuses alados na imensidão das planuras.

segunda-feira, março 13, 2006

EBIT Ponto de Encontro e Ponto de Partida



Esta entrada não podia deixar de passar pelo 1º Encontro de Bloguistas da Ilha Terceira, (EBIT) realizado no passado sábado.
Lamento só agora o fazer, à distância de 48 horas, mas as circunstâncias do mundo real da vida de cada um, ainda continuam a mandar mais alto do que o fortuito acto de blogar.
Mesmo para esta encruzilhada de ligação directa e pessoal entre o mundo real e o virtual, que é, por excelência, o blogue, continua a ser verdade que o mundo real é que tem de continuar a ditar as regras de acesso e utilização de todos os muitos outros mundos a que podemos chegar.
No fundo, a velha regra de “primeiro viver” depois… “abocanhar” o máximo possível de todos estes universos, antigos e novos, que nos vão sendo postos ao dispor.
Quem comece a tropeçar nesta prioridade natural, acaba por encalhar na ponte que cada qual tem de lançar entre os dois e, por regra, sacrificar a sua “fatia” de mundo novo.
Por curiosa coincidência, era o que já tinha acontecido à jornalista Constança Cunha e Sá, quando o seu caso foi trazido ao nosso EBIT.
Para quem, porventura, se interessar por este “case study”, pode consultar o seu testamento e a sua certidão de óbito nos blogues "bichos-carpinteiros" e "Espectro"(ambos blogspot)
Mas voltemos ao 1º EBIT.
Creio que decorreu de modo a que só podemos cair num perigoso risco.
O risco de, daqui por uns anos e muitos outros “Ebites”depois, este passar a ser recordado como o melhor de todos.
Receio bem que, provavelmente, de nenhum outro, se poderá vir a dizer o que se pode afirmar deste:
É possível que alguém não tenha saído deste 1ºEBIT completamente satisfeito, para a sua bitola de aspirações e expectativas que nele possa ter depositado, mas também não me parece que alguém tenha tido razão para se sentir totalmente insatisfeito ou defraudado.
Penso mesmo que, objectivamente, os motivos de satisfação não faltaram:
A preparação, cuidada e pormenorizada, da reunião, com um quase “milagre” de fartura de meios e de inventiva (pastas, recordações, prendas, etc.), para a escassez franciscana de meios e recursos de que a Rosa e o Luís tiveram ao seu dispor.
Eu sei que, provavelmente, é a pior “paga” que se lhes pode dar. Mas que fazer, senão propor que eles continuem “mordomos” desta função, por muitos e muitos anos. Mesmo vitalícios, se assim o entenderem?
O eco que este EBIT teve na comunicação social (até a RTP-Terceira! Com reportagem, ao nível da mais veneranda instituição ou convencional evento! Só visto! Contado, não se acredita!), a atenção que obteve junto de entidades, que até se podiam ter escusado a estar presentes, com qualquer desculpa mais ou menos protocolar, como a Câmara de Angra e o Instituto Açoriano de Cultura.
O ambiente em que decorreu o encontro, permitindo a participação activa de todos, e a exposição dos pontos de vista mais contrastados sobre os temas mais variados.
A combinação, que penso ter acabado por resultar equilibrada, entre perspectivas mais abstractas e genéricas e a abordagem e desenvolvimento de temas mais concretos e de alcance prático.
Terá faltado a redacção de um texto com algumas conclusões, que poderiam dar uma imagem exterior de maior consistência ao encontro e uma consciência mais clara da sua importância para alguns dos seus participantes.
Poderá ter faltado mesmo, o complemento daquilo a que alguém chamou no encontro “uma agenda” de actuação conjunta para a blogolândia insular, ou pelo menos para a terceirense, que projecte num novo patamar, a sua voz e os seus temas , junto da sociedade local.
Tudo isto pode ser certo. Mas tudo isto continua a ser possível. E até o novo blogue, que está a ser preparado pela Rosa para prolongar no tempo e projectar no espaço este EBIT, pode ser a plataforma para tudo isto.
Em conclusão:
Dois factos me parecem seguros.
O 1º EBIT foi um inolvidável ponto de encontro.
O 1º EBIT pode vir a ser um promissor ponto de partida.
Para novos blogues. Para melhores blogues.
Para novos bloguistas. Para melhores bloguistas.
Pela blogolândia que temos!
Pela blogolândia que queremos!
Mais Ebit e mais ebites!
Força ao ebitismo!

quarta-feira, março 08, 2006

A mulher do dia da mulher

Sim.
Acho que bem podia ser Frida Kahlo (1907-1954),
cujo centenário de nascimento se aproxima e cuja obra está, nesta altura, em exposição em Lisboa.
O auto retrato aqui reproduzido ( auto-retrato com colar, de 1933) é um dos muitos que ela fez e revela uma das suas múltiplas faces de mulher e de artista.
A da mulher atraente e auto confiante.
Vitoriosa sobre a dor física e as adversidades da vida, que acabara de ultrapassar.
É desta fase a sua afirmação:
"Eu pinto-me porque estou muitas vezes sózinha
e porque sou o tema que conheço melhor".


Como disse o pintor e seu marido Diego Rivera,
ela foi " a primeira mulher na história da arte a tratar,
com absoluta e descomprometida honestidade,
podiamos até dizer com uma crueldade indiferente,
aqueles temas gerais e específicos
que apenas dizem respeito às mulheres".



E, assim, exprimiu na sua arte, a complexidade
da condição feminina e da sua própria personalidade de mulher,
das formas mais variadas.
Uma delas foi este (duplo) auto retrato de "As Duas Fridas", de 1939.

O dia de regressar no dia...


Acho que o dia de hoje é uma boa data para regressar.
Regressar aos blogues, no dia escolhido para dia da mulher tem algum aliciante.
No meu caso dos blogues é regressar a algo que continua igual ao que era dantes , mas que também mudou bastante.
Embora, por mero acidente imprevisto e falha inesperada, nesta maravilha delicada e sensível, que é o computador.
E, actualmente, o dia da mulher é o quê , senão isto mesmo?
A chamada de atenção para a realidade feminina, que é a mesma de sempre e, ao mesmo tempo, hoje, tão diferente de ontem.
Mas, não vou acrescentar mais nada da minha lavra pessoal.
Deixo-vos com o maior símbolo do enigma feminino: "la Gioconda".
Quem é ?
Não se sabe ao certo.
O que representa?
Não se sabe ao certo.
Sorri ou não?
Não se sabe ao certo.
Este "misterioso" sorriso é mesmo o símbolo de todas as qualidades femininas ou...apenas um disfarce, para um defeito físico do modelo?
Não se sabe ao certo.
Mas o muito que não se sabe, não diminui, em nada, a força do símbolo e do mito captado por Leonardo...
Acrescento ainda, a palavra de um mais conhecidos pensadores das novas realidades dos nossos tempos da sociedade da informação: Manuel Castells.
Mas, desta vez, sobre a condição, passada, actual e futura, da mulher.






quinta-feira, março 02, 2006

Comportamentos Homeopáticos


Em momentos de crise, há que lançar mão de todas as tentativas de solução.
Mesmo das mais desesperadas.
Ou surpreendentes.
É assim que, para alívio dos níveis de tensão na cena internacional, em que todos os gestos, mesmo os mais triviais, podem assumir as dimensões de uma agressão intolerável, também têm aparecido sugestões que podemos considerar do âmbito (metafórico, claro) da homeopatia.
Parece-me ser o caso da seguinte ideia de um humorista e desenhador israelita:
"Não tenho sombra de ódio nem pelos muçulmanos nem pelos árabes.
Mas penso que o judeus estão em melhor situação do que quaisquer outros povos para se rirem de si próprios.
Nenhum iraniano nos consegue levar a melhor neste campo.
É por isto mesmo, que não vamos incendiar embaixadas,
nem organizar sangrentas manifestações.
Vamos, muito simplesmente, publicar,
aqui mesmo, em Israel,
as caricaturas de judeus
mais odiosas até hoje imaginadas."
Jean Daniel, que relata o facto no "Le Nouvel Observateur" acrescenta que este desenhador, com esta observação humorística prestou um precioso contributo para a defesa da liberdade de expressão.
Acredito que sim.
O que duvido muito é que estas doses homeopáticas de profundo sentido de humor encontrem algum eco junto de populações ou governos que ...de humores, só parecem conhecer os ...maus humores.
E que do humor, têm uma gramática muito limitada. Onde não entra nem o singular humor, nem, muito menos, o abstracto humorismo.
Escola de homeopatia, precisa-se? Lá para os médios e extremos orientes?
Talvez.
Escola de humorismo, precisa-se ? Lá para aqueles mesmos lados?
Seguramente. Sem a menor dúvida.

quarta-feira, março 01, 2006

Comportamentos “deslocados”...



A noção de “comportamento deslocado” é uma daquelas noções que, ao contrário da tendência normal de antropormofização na explicação dos comportamentos, passou do âmbito dos estudos do comportamento animal para a explicação de alguns comportamentos humanos.
Todos nós já observámos animais que, num momento de grande tensão ou conflito, súbitamente adoptam um comportamento sem qualquer sentido naquele contexto.O exemplo mais corriqueiro (era) é o dos galos que, no meio de uma luta feroz, resolvem começar a esgravatar e desatar a comer.
Comportamento completamente “deslocado”, porque o problema de qualquer deles, naquele momento, não é a fome.
Como é “outro,” o problema daquelas mulheres que, na televisão, por exemplo, passam, mecanicamente, a mão pelo cabelo para arranjar o que não está desarranjado ou os homens afagam a barba ou o bigode que não têm.
Vem isto a propósito (ou despropósito) destes tipos de comportamentos parecerem ter passado para a politica internacional, nesta hora de inusitada tensão entre países árabes e países europeus.
Parece que, finalmente, se começa a perceber, de ambos os lados, que são necessários gestos, mesmo que de conteúdos notoriamente “deslocados”, mas que, pelo menos, aliviem a tensão.
Mesmo que não sirvam para nenhum outro efeito.
E até, objectivamente, aumentem os perigos reais (ou supostos) que pretendem atenuar.
Que outra coisa se há-de dizer destas palavras do Ministro dos Negócios Estrangeiros do Irão, sobre o acordo com a Rússia, para o ambicionado enriquecimento do seu urânio?
“O ministro iraniano dos Negócios Estrangeiros, Manouchehr Mottaki, reiterou que Teerão, que insiste que o seu programa nuclear "é só para gerar electricidade", não renunciará ao enriquecimento de urânio no seu território, embora as conversações com Moscovo para que esse processo se desenvolva em solo russo possam reduzir as dúvidas internacionais. [Link]
Toda a gente percebe que o Senhor Ministro não(?) está a provocar o Ocidente para qualquer novo episódio de uma “caricatura”de uma qualquer guerra cultural ou religiosa.
Claro que não!
Como os galos do combate, está apenas a tentar encher o papo com mais alguns grãos de urânio, para acrescentar àqueles que pretende continuar a produzir no seu território.
Mais urânio e menos dúvidas!
Que astúcia comportamental, mais eficazmente “bem” deslocada!