domingo, janeiro 13, 2008

Política à portuguesa ao rubro








É o que todos podemos constatar, neste início de 2008, nos três polos principais da actividade política deste país. Portugal continental e Regiões autónomas dos Açores e Madeira.

Em todos eles, uma característica comum.
As entidades que detêm o poder instituído, mais ainda, o personalizam, é que detêm a iniciativa política e definem a agenda dos temas centrais em debate.
No continente, Cavaco Silva e José Sócrates. Nas Regiões autónomas, Carlos César, nos Açores, e Alberto João, na Madeira.
Em traços gerais, Cavaco Silva continua a viver e a sobreviver, em termos politicos, do ritual anual de três discursos: discurso de ano novo, discurso de 25 de Abril e discurso de 5 de Outubro.
Acrescenta-lhe, pelo meio, uns "Roteiros" de designação e intuitos vários, mas que só lhe servem para fazer a sua prova de vida burocrática, perante o país mediático e para que o país real não se esqueça, de todo, da existência do inquilino de Belém, até lá chegado por eleição directa.
Mais do que o cumprimento desses três actos rituais não se lhe pode pedir que faça.
Nem ele tem "golpe de asa" para ir além deles.
O caso de José Sócrates parece-me totalmente diferente.
É mesmo o inverso de Cavaco Silva.
Está em permanente situação de prova crucial, para definir o seu estatuto e o seu lugar político.
Lembremos apenas que as duas decisões que teve de tomar no início do ano, foram decisões que foi forçado a assumir, digamos, "no fio da navalha" da sua própria credibilidade política que acabara de atingir o seu máximo fulgor e expressão, com a brilhantíssima presidência da União Europeia, que, só em Portugal, alguns zoilos encartados conseguem manchar com algumas infundadas reticências.
Mas nem sequer teve a oportunidade de "passear" pelo país o seu Tratado de Lisboa, a pretexto de um referendo, que os seus adversários dizem ansiar, mas só efectivamente a ele, Sócrates, e à sua maior glória, serviria.
Podendo dar-se ainda ao luxo de, ao Tratado, acrescentar na sua fulgurante trajectória, o apoio do maior partido da oposição e de não ter mudado de posição sobre a sua ratificação por referendo.
Somando-lhe ainda o facto de o fazer, em contraste com o seu principal opositor.
Mas tudo isso lhe foi negado.
Teve de assumir o mais difícil.
Demonstrar que não mudara de opinião, quando vai fazer, sobre matéria idêntica, o contrário daquilo que prometera em campanha eleitoral e programa de governo.
O paradoxo do novo aeroporto de Lisboa é, em tudo, semelhante.
A credibilidade de Sócrates aumenta, quando ele é forçado a fazer o contrário daquilo que o seu Governo defendera como inevitável durante dois anos. Renegar a Ota por Alcochete. Tendo ao mesmo tempo de manter o Ministro que se transformara, por culpa própria ou não, no símbolo da Ota contra Alcochete.
São paradoxos vivos da política " à portuguesa" no seu melhor.
Por hoje, deixemo-nos ficar pelos paradoxos do rectângulo continental.
Não há-de faltar oportunidade futura para os dois outros paradoxos insulares.



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