
VIII
E depois ficou à coca,
muito encolhido na toca,
esperando pela justiça.
E a justiça foi feita,
tal como a luz se fizera.
Enfim, enfim, director!
Cantara-lhe as loas os poetas
em récuas, távolas, graais,
pois nunca serão demais
para ocupar a vazia
cave porca, cave fria
onde assentam arraiais!
Viva a Santa Academia!
Viva o Governo que as cria!
Viva a Terra que os nutria!
Vivam todos muito iguais!
Vitorino sem ninguém,
com essa gente está bem.
domingo, março 23, 2008
(XI) Vitorino Nemésio - Uma caricatura de escárnio e mal dizer (XI)
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sexta-feira, março 21, 2008
(X) Vitorino Nemésio - Uma caricatura de escárnio e mal dizer (X)
VI
Subitamente a luz fez-se
no seu espírito letrado.
Coimbrices e açorices
já davam que tinham dado.
Foi-se a fé da sua infância,
comoveu-se honestamente,
bateu com força no peito,
ajoelhou no sobrado
(era convés de um navio)
e botou versos a fio
e ficou santificado.
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quarta-feira, março 19, 2008
(IX)Vitorino Nemésio - Uma caricatura de escárnio e mal dizer (IX)
VII
Mas mesmo assim lá não ia.
E seu desgosto subia,
atravessava fronteiras.
A literatura morria!
Não havia! Não havia!!
Há Nemésio, há Vitorino,
gritava o coro ensinado.
E Vitorino sorria
entre triste e consolado.
Pois Vitorino sabia
como o tinha ensaiado.
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segunda-feira, março 17, 2008
(VIII) Vitorino Nemésio - Uma caricatura de escárnio e mal dizer (VIII)
VI
E Vitorino ensinava
e semeava e podava
muita letra inofensiva.
E gemia pelos cantos
que não havia um escritor,
que toda a literatura
morrera da sua amargura
de não ser um director.
Mas, enquanto assim dizia,
ia ensinando a poesia
aos alunos mais espertos.
Uma poesia inocente!
Ou bela prosa vazia
com muita pornografia
de jornalismo impotente.
Vitorino desistia
de estar bem com toda a gente.
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sábado, março 15, 2008
( VII)Vitorino Nemésio - Uma caricatura de escárnio e mal dizer (VII)

v
Ficou tudo como dantes;
ou antes, ficou pior.
Mas o que importa saber
é que o Dr. Vitorino
não foi posto director.
Vitorino sofreu muito.
Entregou-se mais às letras.
Dedicou-se aos seus alunos.
Escreveu muitos artigos
em que não dizia nada,
para ver se a assinatura,
a tal maldita, a escusada,
se sumia das lembranças.
Vitorino, amargamente,
estava bem com toda a gente.
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quinta-feira, março 13, 2008
(VI) Vitorino Nemésio - Uma caricatura de escárnio e mal dizer (VI)

Quando estala um borborinho,
e muitos papéis circulavam,
que muitos milhares assinavam.
e tudo iria mudar...
E Vitorino com medo
de que tudo se mudasse
e que, se não assinasse.
o não punham director,
fez das tripas coração,
pediu a todos perdão.
e muito a medo... assinou.
Vitorino, aflitamente,
estava bem com toda a gente.
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terça-feira, março 11, 2008
(V)Vitorino Nemésio - Uma caricatura de escárnio e mal dizer (V)
IV E Vitorino subia
em ambições naturais.
De doutor a professor,
não era nada de mais...
Tinha de ser director!
- pois outrossim que diria
a gente da sua aldeia
para quem o professor
nunca é Snr. Doutor
mas o da Escola Primária.
Estava quase, quase, quase...
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domingo, março 09, 2008
(IV) Vitorino Nemésio - Uma caricatura de escárnio e mal dizer (IV)
III E Vitorino fazia e artigações de jornal, e palestras na Emissora, compôs o Gomes Leal. Vi to r i no, cautamente,
Grandes teses de Herculano
que ainda um dia acabaria,
e, pegando na tesoura,
E fazia também versos
com bocadinhos dispersos
de tudo o que era moderno,
com pósinhos só do eterno
do folclore oficial.
estava bem com toda a gente
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sexta-feira, março 07, 2008
(III) Vitorino Nemésio - Uma caricatura de escárnio e maldizer (III)
II
E Vitorino escrevia
de tudo o que lhe passava
ao rés do bico da pena.
Rainha Santa ou baleia,
nessa arte de fazer meia
com verso, prosa ou idéia,
ficavam muito engraçadas.
Toda a gente se encantava
e os ilhéus todos à uma
proclamavam que em suma
nada havia de melhor.
E os outros, intimidados,
concordavam que era bom,
embora sem tom nem som
ou com isso sem mais nada.
Vitorio, finamente,
estava bem com toda a gente.
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quarta-feira, março 05, 2008
(II)Vitorino Nemésio - Uma caricatura de escárnio e maldizer (II)
Em letras, da mula-ruça,
doutor de trocas-baldrocas,
doutor de fosse-o-que-fosse,
pois que um tamanho talento
seria apenas jumento
se na terrinha o deixavam.
Com o seu arzinho modesto,
O seu passinho tão lesto
sua fala toda uus,
para Coimbra o mandaram,
que sempre se governaram
os que em Coimbra estudaram,
e tinha de ser doutor.
Mas Vitorino escritor
é que sonhou logo ser.
Nesse tempo, os estudantes
em Coimbra eram escritores.
E mais valia escrever,
porque os doutores não escreviam,
e Vitorino seria
um doutor entre escritores
e um doutor que escrevia.
Vitorino, mansamente,
estava bem com toda a gente.
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segunda-feira, março 03, 2008
(I) Vitorino Nemésio - Uma caricatura de escárnio e mal dizer (I)
O texto que, nos próximos dias, vai ser publicado no Ventilhador, (preenchendo um período de ausência, de duração incerta, no continente, do responsável do blogue ) ainda se pode considerar ter por motivação imediata as recentes comemorações do aniversário da morte de Nemésio.
O seu conteúdo pode parecer injurioso para Nemésio, mas tem de perceber-se que se trata de uma caricatura sarcástica de raízes muito antigas na literatura portuguesa e que Jorge de Sena cultivou.
Como todas as caricaturas, tem por base um exagero em relação à personalidade de Vitorino Nemésio. A sua ligação ao jornalismo e a sua ambição de ser responsável por jornais como director.
Duas características que, longe de o diminuírem apenas o engrandecem.
Tanto mais que, sendo este poema, implacavelmente satírico para Nemésio, datado de 15 de Dezembro de 1956, a vida daria a Nemésio, bastantes anos depois, a oportunidade de demonstrar que não estava disposto a tudo sacrificar, para conseguir estar à frente de qualquer jornal.
Tal aconteceu por duas vezes.
Da primeira, quando, ainda no período marcelista, foi convidado para dirigir "O Século"e não se coibiu de tornar públicos os objectivos que o moviam na aceitação do cargo.
Considerados inaceitáveis para os tempos de então, o convite foi cancelado.
Da segunda, quando, já depois do 25 de Abril de 1974, aceitou dirigir um jornal de direita, "O Dia", e abandonou o lugar passados poucos meses, por discordar dos rumos que o jornal levava.
Tudo resumindo, pode dizer-se que o Romance-real- da vida de Vitorino Director desmentiu o Romance- satírico- do Vitorino Director que Jorge de Sena, enfaticamente, imaginou.
ROMANCE DE VITORINO DOUTOR
Nas ilhas dos Bensaúdes
do ananaz e da América,
foi que nasceu Vitorino,
com seu nariz de judeu
sua cara de sandeu,
suas graças de menino
E Vitorino crescia
em falas mansas e doces,
em jeito de quem dá couces
a quem os gosta de levar.
E tais patranhas dizia,
com tal sabença escondia
o que estivesse a pensar
que todos na sua aldeia,
pensando no continente
(onde os ilhéus são a gente
que melhor sabe empurrar)
para doutor o criavam
Publicada por Dsousa à(s) 3:40 p.m. 0 comentários
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