
Chegam com atraso de dois dias, a"Oventilhador" as comemorações dos 30 anos da morte de Vitorino Nemésio.
E chegam com um dos últimos poemas que ele terá composto em vida.
No Sábado, dia 26 de Novembro de 1977.
Pelo menos, assim foi apresentado no n.º5 e 6 da revista "Raiz e Utopia" referente à Primavera/ Verão de 1978.
Há uma pequena curiosidade à volta deste poema.
É apresentado como inédito na capa e no índice da revista, mas, ao contrário de um poema de Jorge de Sena publicado na página anterior, esta indicação é omitida na página da sua publicação.
Mas, rigorosamente inédito ou não, é certo tratar-se de
UMA DAS ÚLTIMAS POESIAS DE VITORINO NEMÉSIO
Tenho o mundo na mão pela manhã,
À noite lançam-me ao mar com ele aos pés
Tais os que morrem a bordo a meia viagem
E todo o meu dia é uma luta
No perpétuo e estúpido bulício:
A minha funda é o cilício
Do que fui incapaz aspirando a santo em menino.
Assim vivo doente, enérgico à força e peregrino.
Oh como é bom e triste ser um velho espantado
De ainda há dois anos parecer gente por inteiro:
Mas quanto a Morte é mais vizinha
Mais mortos vêm como grão apurado ao celeiro
E até a luz eléctrica macaqueia a luz perpétua,
Os ausentes acodem à nossa alma
Na secura da nossa solidão.
Eu agarro-me à vida como à palmeira a palma
Mas sei amar a Morte que me espera no chão.
(Sab. 26 de Nov. 77)
sexta-feira, fevereiro 22, 2008
De Nemésio à beira da Morte para o Nemésio eterno
Publicada por Dsousa à(s) 8:05 p.m. 0 comentários
Etiquetas: poesia, vitorino nemésio
quinta-feira, fevereiro 14, 2008
No"Alamo Esguio", a saudade continua
No "Álamo Esguio", a saudade continua a ser tema.
Hoje ainda, na forma das últimas redondilhas "Do Mar e a da Saudade",
a que pertencem as duas estrofes que destaco nesta entrada.
Amanhã, e por dois dias, sob a forma de um poema muito belo,
escrito por Coelho de Sousa, meia dúzia de anos antes "Do Mar e da Saudade",
mas que, em poucas quadras,
o antecipa e o condensa,
com grande apuro de forma e conteúdo,
num tom plangente,
em que ecoa o ritmo e a melodia da canção da "Saudade do "balho" tradicional da Terceira.
Não perca.
É mesmo poesia.
Da melhor.
Publicada por Dsousa à(s) 10:30 a.m. 0 comentários
Etiquetas: alamo esguio, Coelho de Sousa, poesia
segunda-feira, fevereiro 19, 2007
As máscaras no carnaval da poesia
Só mesmo Camões
é que podia conseguir,
num só poema,
no mesmo poema,
dar forma e expressão,
às duas grandes correntes,
mais antigas
e mais singulares,
da poesia portugesa:
A cantiga de escárnio e mal-dizer
e a trova de amor.
Por obra e mão dele,
cada um de nós
pode repetir
este milagre
de metamorfose
poética.
É só ler as "trovas" seguintes,
na vertical,
e teremos a cantiga de escárnio.
Ou, então, na horizontal,
isto é,
ligando cada verso
da estância da esquerda
ao verso respectivo
da estância da direita,
e teremos
a mais bela trova de amor.

É o carnaval da poesia.
Goze-o. O melhor que puder.
Este. E o do calendário.
Publicada por Dsousa à(s) 2:39 p.m. 0 comentários




