sábado, maio 05, 2007

Uma esquerda em renovação

Penso que vale a pena procurá-la,
na cola da batalha presidencial que se trava em França.
Quem se reveja neste campo
e nestas preocupações
tem tudo a ganhar
em ler este editorial
do novo director
do renovado "Liberation".
Une gauche renouvelée

Une gauche qui rassemble ceux qui croient qu’un autre monde est possible pour plus tard et ceux qui souhaitent, pour aujourd’hui, un monde meilleur, qu’ils soient d’une gauche radicale ou réformiste, cabrée dans ses refus ou bien ouverte au centre.
Pourquoi Ségolène Royal ?
Pas parce qu’elle est socialiste, mais parce qu’elle a su, avant tout, s’affranchir des pesanteurs de la vieille gauche pour ouvrir la brèche du renouveau.
Pas parce qu’elle est une femme, mais parce qu’elle est une femme libre.
On dit que ses chances sont minces.
Peut-être.
Mais l’élection n’est pas jouée avant que le peuple en ait décidé.
Nous y croyons.
Et, en cas d’échec, nous préférons être minoritaires en respectant notre idéal, plutôt que de l’affadir dans une neutralité sans âme.
A gauche donc, plus que jamais, sans exclure quiconque.
Au nom de notre passé, au nom de notre avenir.
Une gauche renouvelée

sexta-feira, maio 04, 2007

Afinal, É fácil, É barato e dá milhões

Não é isto mesmo que as pessoas ( e os governos ) querem?
Ou deviam querer?
Então, por que é que esperam?
Se o custo de fazer é menor que o custo de não fazer?
Se, hoje, tudo se tende a medir pela bitola do custo-benefício,
porque continuam a não-fazer?
Com elevadíssimo custo (para todos)
e sem benefício
(senão para alguns,
muito poucos,
embora sejam poucos
com muito
).
Controlar el cambio climático resulta posible y barato - Cadena SER


Controlar el cambio climático resulta posible y barato La ONU considera que mantener la temperatura en valores actuales supondría sólo gastar el 0,12% del PIB mundial 04-05-2007 AGENCIAS
Controlar el cambio climático resulta posible y barato - Cadena SER

quinta-feira, maio 03, 2007

É possível ganhar um debate, sem que o adversário o tenha perdido?

 

Technorati tags:

 

Acho que sim.
Se preenchidas algumas condições prévias.
Se o debate for na televisão.

Se o debate ocorrer dentro de uma campanha eleitoral.
Se as expectativas sobre o debate forem desequilibradas e um dos contendores tiver conseguido equilibrá-las.
Se um dos protagonistas do debate tiver de lutar, não só contra o adversário, mas contra estereótipos arreigados, como os de sexo, origem ou religião.
E se esta luta tiver sido ganha.
Se a atitude mantida durante o debate tiver sido a da determinação, persistência, convicções firmes, capacidade de luta, força para se impor ao aversário e para  o levar a reconhecer, explicitamente, ou a aceitar, implicitamente, falhas, erros ou imprecisões. 
Se o adversário tiver um legado político pouco coerente ou consequente com as posições que defende e isto conseguir ser posto em evidência.

Se as quase inevitáveis falhas ou imprecisões técnicas ocorridas durante o debate se revelarem  mais penalizadoras ou menos desculpáveis, para quem, por força das funções anteriormente exercidas, teria maior obrigação de evitá-las.

 

É certo que, este estendal de condições pode parecer excessivo em número e demasiado genérico, apenas  com o objectivo, consciente ou não, de esboçar um quadro muito concreto, para atribuir uma vitória, já previamente desejada ou mais ou menos preconceituosamente atribuída.
Tudo isto é possível.
Mas também é certo que é precisamente isto o que, realmente, penso do resultado do debate de ontem entre os dois "S" (Sarko-Sego) candidatos à Presidência de França.
Mal comparando embora, creio que Ségolène, ontem, se encontrava numa situação muito semelhante à de Mário Soares, nas últimas eleições presidenciais, em Portugal.
O seu maior inimigo não eram as suas ideias, méritos ou qualidades, no confronto com o seu adversário.
O principal inimigo a superar, eram os estereótipos correntes sobre alguém que já cumprira e conquistara o seu lugar  na história do país e, pela sua idade, devia aguardar apenas a entronização definitiva pelos historiadores e não, mais uma vez, forçar os eleitores a reconfirmarem tudo isso.
Só que Mário Soares nunca conseguiu essa superação.
Penso que, ontem, Ségolène Royal, pode ter dado um passo importante para esse objectivo.
Se chegará ou não, para lhe dar a vitória eleitoral, é outra questão.

A reacção de Bayrou, ao debate, e que dá título ao Le Monde, pode ser apresentada como uma confirmação possível do que fica dito.

quarta-feira, maio 02, 2007

Duelos em Maio

Tem sido esta a regra, em França, desde 1974.
É em Maio que os candidatos da 2ª volta das Presidenciais
jogam todos os seus trunfos nos écrans da televisão, perante 20/30 milhões de franceses.
Desta vez, será hoje mesmo.
Será um jogo decisivo para a França e para a Europa.
Pessoalmente, espero que o/a imprevisto/a vença o/a regra.



domingo, abril 29, 2007

De folhetim em folhetim até São Bento


Assim desejava o Gonçalo, Gonçalinho, Gonçalão da "Ilustre Casa de Ramires", de Eça de Queirós, o percurso da sua vida - da literatura nacionalista à política - de que, os acasos da permanente arrumação/desarrumação das prateleiras da minha biblioteca, me levou à releitura recente de algumas páginas.
Assim também chegaram, anteontem, a São Bento os previsíveis e previstos principais protagonistas do debate mensal na Assembleia da República.
O Primeiro Ministro, na sua estreia depois do desgaste do folhetim mediático da sua sinuosa licenciatura em Engenharia.
O líder da oposição, sob a constante ameaça de mais um arguido na interminável colecção de aprendizes de mafioso, em que parece estar transformada a lista dos membros do PSD na Câmara de Lisboa; depois das suas folhetinescas reviravoltas no caso OTA, e dos lancinantes gritos a rebate contra os governamentais assaltos à liberdade de imprensa, de que o PSD gosta de se reservar o rigoroso exclusivo.


E ainda, como terceiro personagem, Paulo Portas, o líder auto-entronizado da "outra" verdadeira oposição a Sócrates (o que quer que isto seja, só ele próprio o saberál), recém regressado do treino contra Sócrates no seu "putching-ball" privativo em que conseguiu transformar Ribeiro e Castro.


Digamos que, do ponto de vista das vitórias ou derrotas mediáticas, que sempre são estes embates mensais,
(mais até do que debates mensais),
nenhum destes protagonistas esteve além das expectativas criadas, mas os dois líderes das duas oposições (a oposição real que temos, a de Marques Mendes; e a oposição virtual que Paulo Portas nos promete) estiveram muito aquém do que seria desejável, previsível ou mesmo prometido.


Pelo lado de Marques Mendes, a derrota foi total.
Continuou a preferir "voar baixinho" pelos temas, já mais que explorados, da OTA e da saúde.
Com a OTA, não se livrou mesmo de se ver reduzido à caricatura mais própria da "contra-informação,"do que do debate políitco, que Sócrates conseguiu traçar do seu comportamento errático, que despreza os estudos de trinta anos sobre o assunto, para se contentar com visitas de turismo político, aos locais do "sim" e do "não" á OTA.
Mas a sua mais flagrante falha foi a de ter deixado cair o tema quente do celebrado discurso do porta-voz do seu partido na sessão do 25 de Abril.
Foi necessário Sócrates desafiá-lo, à queima-roupa, para o tema, fazendo-o, assim, passar de possível feroz acusador, no tom do discurso anterior dele próprio e do seu partido, a frágil e remisso acusado, balbuciando explicações e justificações.
É claro que o tema não passa de mais um dos muitos "blufs" mediáticos em que o PSD de Marques Mendes se tem vindo a enredar.
Daí a sua opção inicial de evitá-lo.
E assim acabou mais um dos seus repetidos insucessos nestes recontros mensais.
Quanto a Paulo Portas manteve-se no seu estilo habitual de fazer debate político na Assembleia, tal como fazia jornalismo no "Independente".
Ou seja, fiando-se no pressuposto jornalístico, de que trazer um assunto para a primeira página é que lhe dá importância.
Foi o que, manifestamente, tentou fazer no único tema de política geral que decidiu abordar.


Um tema claramente de simples importância política marginal, como foi o novo critério de actuação pedagógica em relação às faltas injustificadas no projectado estatuto dos alunos.
Para quem acabava de travar uma fragorosa batalha dentro do seu partido, para procriar uma nova oposição e um novo partido, esteve mais perto do modelo de Ribeiro e Castro, nas suas frouxas aparições televisivas, do que do revolucionário de peito ao léu, em que se tentou metamorfosear para as rerfregas partidárias internas.
O problema é que, desde sempre, génio para destruir nunca lhe faltou.
Dentro do seu partido e nos partidos dos outros.
Paciência e capacidade para recriar e substituir com melhorias, o que destruiu, é que continua sem acertar.
E não vai ser com a sua requentada proposta de transformar o actual modelo de solene debate mensal com o Primeiro Ministro, numa corriqueira sessão semanal de perguntas, que Paulo Portas vai alterar, nem o sucesso habitual de Sócrates nestes confrontos, nem os rumos da oposição ou da política portuguesa.

quinta-feira, abril 26, 2007

A Costa Neves, o líder que "bloqueou"

Uma sugestão, porventura útil, mas seguramente oportuna, para um (desesperado) político em estado de bloqueio institucional.




Play Mother of The Year

E imagine "Costa Neves, o ano do bloqueio".

terça-feira, abril 24, 2007

Na blogolândia, de novo






Da "Festa da Música" à "festinha com teclas brancas e pretas"





Creio que é um facto normal e inevitável.
Pelo menos, é o que me parece poder concluir da minha própria experiência de mais de dois anos por estas andanças da blogolândia.
A distância entre os blogues e a vida de cada bloguista não se mantém constante.
A quem adquiriu o vício de blogar, a maioria das vezes, a vida empurra-o para os blogues.
Mas, por vezes, também o afasta deles.
Dos seus, e dos blogues dos outros.
De fazê-los, ou, simplesmente, de lê-los.
Esta aproximação-afastamento ou atracção-rejeição é mesmo cíclica.
Pode alternar períodos de frenética actividade com fases de afastamento compulsivo.
E tem alturas do ano mais propícias a uma e outra das situações.
Comigo, por exemplo, os últimos dias de Abril e/ou os primeiros de Maio, têm sido sempre de tréguas nos blogues.
Os pretextos é que têm variado.
Em anos anteriores, sempre pela mesma boa e agradável razão.
A minha ida anual, durante os sete anos que ela durou, à "Festa da Música," no Centro Cultural de Belém.
Neste ano, porque o CCB resolveu transformar a, consagrada, reputada, convidativa e eclética " Festa" nuns incipientes, indefinidos, e incertos dias de festinha com pianos e algumas variantes de passatempo e pedagogia.
A mudança não foi suficientemente convincente para me levar dos Açores até Belém.
Para passatempo, pareceu-me demasiado juvenil.
Como pedagogia, demasiado infantil.
Aguardemos melhores indicações e referências para o ano que vem.
A verdade é que, não tendo conseguido arrastar-me até Belém, a festinha dos pianos afastou-me dos blogues.
Mas não me impede que regresse.
Cumpridos os dias de irritação com a transformação, nestes dias, do CCB (Centro Cultural de Belém) em mais uma das muitas PCP (Periferias Culturais Portuguesas) que já temos.

terça-feira, abril 17, 2007

O dia D e o Dia H português






É verdade, este bizarro país europeu pode estar a viver, hoje, como habitualmente sem disso ter consciência, e em simultâneo, o "seu" dia D e o seu dia H.
Este último vive-o, como todos os europeus, na memória magoada e envergonhada daqueles auto-intitulados mais caucasianos de todos os caucasianos, mais europeus de todos os europeus
( tão europeus que até eram arianos)
(tão arianos que até eram hitlerianos)
terem levado ao extremo potencial, a inteligência técnica europeia de produzir em série.
De produzir em série a morte,
como em série produz a técnica europeia vacinas para a vida, automóveis para as autoestradas
(por sinal, duas invenções também arianas, ou até mesmo hitlerianas)
ou farinhas para animais
(umas, já contaminadas à saída da fábrica; outras, nem tanto).




O dia D pode vir a estar a vivê-lo, na sentença que a Universidade Independente parece estar a reservar para esta tarde, para o seu primeiro ministro.
Como assim?





Sócrates aguardou aquelas mais de duas semanas, para falar a respeito do seu azarado diploma, sobretudo, por duas razões
(para além da razão oficial de aguardar a decisão do Ministro Mariano Gago sobre a Independente)
Em primeiro lugar, esperando que tivesse chegado ao fim, o tempo de exploração mediática e jornalística sobre o aparecimento de novos papéis comprometedores retirados da arca encoirada da sua licenciatura.
Em segundo lugar, aguardando a hora em que a exploração política deste caso já não tivesse espaço nem sentido.
Com os dados públicos até hoje existentes sobre o mofino tema, e apesar dos esforços de alguns jornalistas e quejandos, para acrescentarem mais algumas revelações de menor monta e fundamento, o seu cálculo mostrou-se correcto.
E Marques Mendes também mostrou, à sua custa, que não havia "engenharia" possível que permitisse à oposição "pescar" nestas águas.
Mas o aparecimento de novos dados, que, directa ou indirectamente, envolvam o nome de Sócrates pode levar ao renascimento de todo este embróglio desde a sua raiz mais apodrecida e envenenada.
É que a situação tornou-se, realmente explosiva, para Sócrates, em dois sentidos.
Num deles, porque o futuro da Universidade Independente está nas mãos de Sócrates, através da decisão do seu Ministro sobre o seu encerramento definitivo ou não.
E qualquer que ela seja
(neste momento só o encerramento parece fazer sentido)
sempre pode ser arremessada contra Sócrates.
Ou por excesso de rigor
(vingança)
ou por excesso de benevolência
(negócio obscuro ou medo)
No outro, na circunstância de o futuro político de Sócrates estar nas mãos das revelações, já ditas explosivas, daquela mesma Universidade.
Conseguirão os novos "papeis" da Independente invadir, de novo, as praias da "normandia" da política portuguesa?
Aguardemos.

sábado, abril 14, 2007

António, não morras agora que estão a olhar para ti.

 

 

António, não te sentes mal pois não, não vais morrer pois não, não morras agora que estão a olhar para ti e é uma vergonha, não posso dizer às pessoas
- o senhor desculpe mas o meu escritor português preferido morreu, assim, em frente de toda gente, logo depois de escrever para  toda gente que tinha sido operado a um cancro

         espera até chegares a casa e morre então se quiseres mas não agora, que mau aspecto, que vergonha, se queres morrer a sério como toda a gente, a gemer no hospital, com radiografias e análises médicas, imagina a vizinha de cima

- O António morreu numa vulgar esquina da literatura de nariz na corriqueira crónica semanal e não de cansaço criador no grande romance calculem
  diz-me lá se gostavas que dissessem isso de mim, de nariz no pastel de nata, calculem,

  imagina que bonito António, um grande escritor de nariz nos parenteses das tuas croniquetas, levanta-te, tevanta-te imediatamente, fazes o favor de te levantares, de esperar até chegarmos a casa, há autocarros de dez em dez minutos, não custa muito, e depois tiras o casaco, desabotoas o colarinho, pões-te à vontade, que ninguém te diz nada.

 

Nota -Adaptação, propositadamente incompleta, da parte final de uma crónica antiga de António Lobo Antunes, que, no último número da revista "Visão," publicou uma crónica que podia ter por título
(dele):
Olhem para mim. Acabei de ser operado a um cancro. Nunca morrerei de "uma (eufemística) doença prolongada".
O título
(meu)
(continuando a ser dele),
seria:
António, não entres por enquanto tão depressa nessa noite escura.

sexta-feira, abril 13, 2007

O Presidente é (politicamente) Irresponsável (II)

 

Façamos alguns"supônhamos", para falar em bom "pretuguês".
Mas, antes, como ponto de referência, voltemos a Canotilho e Vital Moreira.
Desta vez, aos "Fundamentos da Constituição"(Coimbra Editora, 1991, pag. 211), em que se diz:
"O papel constitucional (do Presidente da República), para além da sua função de representação, é, essencialmente, a de controlo da maioria governamental, de arbitragem institucional e de garantia do regular funcionamento das instituições"
Em face destes objectivos e critérios da actuação presidencial, atiremo-nos, então, aos "supônhamos".
Suponhamos que o Presidente de República  tinha resolvido pronunciar-se a respeito do projecto de pergunta a propor em referendo sobre o aborto, antes de a pergunta ser apresentada à Assembleia da República,ou durante a sua discussão, na Assembleia da República, ou depois da sua discussão.
Ou, em alternativa ou complemento, suponhamos que o fazia, antes de a enviar para o Tribunal Constitucional para parecer, ou durante a sua apreciação por aquela entidade, ou depois de a receber para promulgação.
 Suponhamos  ainda, que o fazia antes de iniciada a campanha para o referendo, durante a campanha para o referendo ou depois de ela encerrada.
Ou também que o fazia antes de depositar o  seu voto na urna, ou durante, ou depois?
Ou resolvia pronunciar-se antes de começar o debate da lei do aborto na Assembleia da República, ou durante o debate ou depois de ele ter terminado?
Ou ainda decidia pronunciar-se antes de terminado o período para o seu eventual envio para o Tribunal Constitucional, durante este período ou depois desta consulta?
Em qualquer destes casos, penso que ninguém  hesitaria em dizer que o Presidente da República quebrara o dever de isenção que lhe permitiria exercer com credibilidade a sua função de arbitragem neste caso concreto da temática do aborto. 
Em todos estes exemplos, teria sacrificado as condições do  adequado exercício daquela função, às sua inclinações, interesses ou cálculos de cidadão ou de candidato com determinada predominância de eleitorado?
Mais ainda, se o fizesse incorreria na mesma falta de isenção de um qualquer agente do Estado, que violasse direitos ou interesses legalmente protegidos dos cidadãos, como se dispôe no art.º 271º da Constituição.
Questão final.
Haverá alguma diferença entre todos estes casos e o caso concreto de pronunciamento sob a forma de comentário ou mensagem à Assembleia da República, durante a promulgação da lei?
Haverá alguma diferença entre este comportamento presidencial na página oficial da Presidência da República, antes da regulamentação da lei ou o de um responsável governamental na página oficial de um qualquer governo, antes do voto no referendo?
É o que terá de ser demonstrado.
E não me parece nada fácil fazê-lo. 

quinta-feira, abril 12, 2007

O Presidente é (politicamente) Irresponsável

 

"Sob o ponto de vista político, o PR é irresponsável".
É o que, literalmente, se diz no comentário ao artigo da Constituição, sobre a responsabilidade criminal do Presidente da República, na minha velhinha edição de 1980 da Constituição (então, art.º 133.º) comentada por Canotilho e Vital Moreira.
O que nenhum comentador tecnicamente habilitado como os dois citados, ou cidadão apenas medianamente atento podia prever, era o sentido inusitado que o actual Presidente da República daria a este estatuto de irresponsabilidade.
Mas já tivemos duas amostras recentes sobre a sua pessoalíssima interpretação da irresponsabilidade política.
O primeiro foi o lamentável exemplo da exclusão de Mário Soares das comemorações presidenciais dos 50 anos da assinatura do Tratado de Roma.
Não será, por acaso, um refinado modelo  de irresponsabilidade política, o cidadão Cavaco Silva aproveitar o exercício de uma actividade como Presidente da República para, indirectamente, exprimir a sua opinião pessoal sobre o principal promotor da presença de Portugal na União Europeia?
A resposta é sim.
Resposta que levanta o verdadeiro problema que está por detrás desta irresponsabilidade "sui generis":
Cabe no âmbito do Estatuto do Presidente da República utilizar as actividades próprias da Presidência, para manifestar as  suas meras opiniões de cidadão, político ou candidato?
É evidente que não, face ao bom senso e às disposições constitucionais sobre " o regime geral da responsabilidade dos órgãos, funcionários e agentes do Estado" (arts 271.º e 21.º/22.º).
O segundo e último exemplo desta singular interpretação do Estatuto Presidencial revelou-se, ainda mais claramente, na promulgação "comentada" a que o Presidente procedeu com a lei do aborto.
As considerações a fazer sobre este segundo caso seguem dentro de pouco.   

domingo, abril 08, 2007

Basta de sarjeta jornalística!

Nesta outra OTA-licenciatura do 1º ministro.
Tal como na outra OTA-Aeroporto:
Ninguém tem argumentos sérios,
mas toda a gente tem dúvidas avassaladoras;
Ninguém olha sequer para as provas já publicadas,
mas toda a gente exige uma nova prova ainda por publicar;
Todos têm um palpite sobre a situação actual,
mas ninguém consegue apresentar qualquer alternativa consistente para outra solução
sobre o que devia ser feito,
nem quanto à OTA-aeroporto
nem quanto à OTA-licenciatura de Sócrates.
Toda a gente sabe que por cada nova prova apresentada,
aparecerá sempre uma nova dúvida mesmo que requentada.
Por cada novo personagem que entre em cena com uma resposta ou uma solução,
aparecerá inevitavelmente um velho/novo personagem trasvestido de jornalista ou comentador,
a acenar com uma sombra de dúvida mais ou menos hiperbólica.
Parece-me evidente, que a maioria das pessoas, que tem acompanhado as múlltiplas peripécias, sempre renovadas com novos pretextos a cada hora de novo noticiário televisivo, estão mais que desejosas de ver este assunto encerrado,
mas os senhores (ou senhoras, como no presente caso do DN- viva a igualdade do género...neutro) jornalistas, fabricantes de manchetes e folhetins intermináveis, agora já se dão ao luxo de fingir antecipar os argumentos e as provas que, aliás, sempre conheceram, para lhes retirar força quando o directo interessado as apresentar, mas prevendo, desde já, "que ele não poderá esclarecer todas as dúvidas".
Tal como a OTA-aeroporto,
a OTA-licenciatura DN Online: Sócrates forçado a mostrar diplomas para se defendercontinuará a correr na sarjeta jornalística dos jornalistas e comentadores em busca de sensacionalismo fácil ou politização desesperada dos factos ou enviesadas especulações, tal como os "colos preferidos" da campanha eleitoral de 2005, as férias no Quénia e na neve em 2006.




José Sócrates não poderá esclarecer todas as dúvidas que persistem em torno da licenciatura,
nomeadamente o facto de não existir Conselho Científico (o órgão que dá equivalências) na altura em que pediu as equivalências. Dirá que fez o que qualquer cidadão faz quando se dirige a uma universidade reconhecida pelo Estado para ministrar Engenharia Civil, nomeadamente por Manuela Ferreira Leite, que agora o critica: pediu equivalências, deram-lhe.
DN Online: Sócrates forçado a mostrar diplomas para se defender


sexta-feira, abril 06, 2007

Entre um deicídio e um genocídio



Génocide au Rwanda - Wikipédia


Le génocide au Rwanda dura du 6 avril au 4 juillet 1994.
L’ONU estime que quelque 800 000 Rwandais, en majorité Tutsi, ont trouvé la mort durant ces trois mois[1].
Ceux qui parmi les Hutu se sont montrés solidaires des Tutsi ont été tués comme traîtres à la cause Hutu.
D’une durée de seulement 100 jours, ce fut le génocide le plus rapide de l’histoire.
Génocide au Rwanda - Wikipédia




Poderá não parecer a muitos a escolha mais natural.
Mas, neste dia 6 de Abril de 2007,
em que se comemoram mortes com grande impacto na história da humanidade;
umas que muitos recordam,
outras que todos desejariam esquecer;
umas que datam de séculos,
outras que têm pouco mais de uma década;
umas que são religiosamente revividas,
outras que tendem a ser hipocritamente esquecidas;
achei oportuno lembrar um exemplo recente
destas últimas.
Ao século da banalização da morte,
não poderia faltar este título
"DO GENOCÍDIO MAIS RÁPIDO DA HISTÓRIA".









quinta-feira, abril 05, 2007

Em Abril, blogues mil


Do "Scripting news" ao "Pay Per Post".

Da novidade à normalização.

Da explosão à banalização.

Da marginalidade ao "mainstream."

Da indidualidade do bloguista à comunidade dos agregadores de blogues.

Estas e outras expressões do género simplificam mas resumem a evolução do mundo da blogosfera, nesta sua primeira década de existência.

Outros dez anos, e chegaremos ao resultado final de passar a ter tanto sentido, e ser tanto (tão pouco!) caracterizador de alguém dizer que tem um blogue como dizer, hoje, que tem um automóvel?
A este último, ninguém o define, só por isso, como "automobilista".
É, pelo menos, uma das evoluções previsíveis e já previstas por alguns estudiosos do fenómeno.











ELPAIS.com - Los 'blogs' cumplen 10 años - Tecnología



Este mes de abril se celebra en Estados Unidos lo que para muchos es el décimo aniversario de la aparición del primer blog. El autor es Dave Winer, al que se le atribuyen múltiples méritos relacionados con la web 2.0 y entre ellos ser el padre de los blogs con su Scripting news, una bitácora tecnológica y política, que empezó a escribir en abril de 1997.
ELPAIS.com - Los ’blogs’ cumplen 10 años - Tecnología


terça-feira, abril 03, 2007

De 100 em 100 dólares até aos 26 milhões


ELPAIS.com - Hillary pulveriza los récords de recaudación - Internacional

La candidata demócrata a la presidencia de Estados Unidos,
Hillary Clinton ha pulverizado todos los récords
de recaudación de fondos electorales en el primer trimestre de campaña presidencial. La senadora ha reunido la respetable suma de
26 millones de dólares,
casi el triple del anterior récord
de 8,9 millones, marcado por Al Gore en 1999, en una campaña que ha visto crecer el presupuesto de todos los candidatos
ELPAIS.com - Hillary pulveriza los récords de recaudación - Internacional



Hillary tem todas as razões para rir.
E nós, democratas de um país latino, todas as razões para nos espantar.
Primeiro, porque parece ser regra nos Estados Unidos, os candidatos conseguirem arrecadar dinheiro suficiente numa campanha, para lhes sobrar dinheiro para a campanha seguinte.
Entre nós, sabemos como é.
Sobram dívidas.
E "buracos" na legalidade das contas,
que o Tribunal de Contas vai,
zelosamente,
"tapando" com multas.
Segundo,
porque os americanos parecem continuar dispostos a pagar,
generosamente,
e directamente do seu bolso
( e não apenas indirectamente, através dos impostos e do simbólico pagamento, por uma escassa minoria, de uma quota aos partidos) os seus políticos e a sua democracia.
Apesar de os dias que, actualmente, nela se vivem nem serem especialmente exaltantes!

segunda-feira, abril 02, 2007

É a Escolha que Resta

A dimensão do desastre.
A dimensão considerada ainda suportável
representa 20% de alterações climáticas para os próximos cem anos.
O desastre total vai levar-nos até aos 40%.
Já não parece haver lugar para boas escolhas.
Apenas para escolhas menos más.
Opção lamentável
e pesada herança deixada ao futuro.
A opção do condenado.
A escolha entre a forca
e a cadeira eléctrica.
Entre a morte súbita
e a morte lenta
.






ELPAIS.com - Climas del siglo XXI - Opinion / Blogs


Será difícil reconocer este planeta dentro de 100 años.
Aun en el mejor de los casos, con una política inteligente de control de emisiones, el 20% de la superficie de la Tierra habrá sufrido tal cambio de temperaturas y de régimen de lluvias que tendrá un clima enteramente nuevo.



ELPAIS.com - Climas del siglo XXI - Opinion / Blogs)

sexta-feira, março 30, 2007

A reportagem vale, sobretudo, pelo título





Mas o conteúdo não deixa de ter também interesse.
Pelo menos, estas "gafes" encenadas do comediante BUSH,
não provocam "danos colaterais" irreparáveis.





ELPAIS.com - El comediante Bush & CIA - Internacional



El comediante Bush & CIA



ELPAIS.com - El comediante Bush & CIA - Internacional



quarta-feira, março 28, 2007

Por que é que Salazar não há-de continuar a ganhar concursos?

Quando continua a abundar gente
pronta a querer e a fazer,
exactamente,
aquilo que Salazar quereria e faria.
Todos os pretextos servem.
Até o refinado argumento
da opinião dos clientes
sobre a exigência da perspectiva "científica"
em relação aos livros sobre religião.
Acho simplesmente espantoso ser uma livreira
a decidir do carácter "científico" ou não de um livro.
Espero que se alguém se lembrar de escrever sobre
"O lápis azul da livreira"
respeite esta solene exigência!






Açores não quiseram O Evangelho Segundo Judas




Quase duas dezenas de livrarias dos Açores, entre as quais três lojas da Post, a livraria católica, não quiseram comprar o livro O Evangelho Segundo Judas, por Benjamim Iscariotes, publicado na semana passada em vários países. O livro, da autoria do romancista Jeffrey Archer e do biblista Francis Moloney, quer recriar a história de Judas a partir da narração de Benjamim Iscariotes, apresentado como o filho do "apóstolo maldito".

segunda-feira, março 26, 2007

Tal como os pais, na RTP


Os estudantes de Letras têm dois dias para decidir se querem uma associação com dirigentes simpatizantes do Partido Nacional Renovador (PNR) e do movimento da Frente Nacional, a Lista X; ou ligados ao PCP, a Lista U.








Os extremosos pais deixaram-se encurralar entre Álvaro Cunhal e Oliveira Salazar,
na escolha para o maior dos Grandes Portugueses promovida pela benemérita RTP.
Porque é que os letrados filhinhos haviam de ser mais espertos
e não ficar sem opção ou meio-termo,
entre a extrema direita/fascismo e o PCP?
Só uma obervação.
É da historia do século passado que estas situações de "classe contra classe", de extremo contra extremo,
se transpostas para o âmbito nacional,
levaram sempre ao mesmo resultado:
às ditaduras.
Também, aqui, será apenas uma "brincadeira" de estudantes?
Como, na RTP, era apenas um concurso?





Uma das grandes opções


Finalmente, a chanceler respondeu às críticas aos seus métodos, discretos e longe da ribalta, lembrando que foi assim que logrou em menos de 24 horas finalizar uma Declaração de Berlim com sentido e que também o Tratado de Roma foi negociado à porta fechada.


(via )





Não tenhamos dúvidas.
Esta é uma das opções decisivas para os políticos dos novos tempos.
Escolher entre a ribalta e a História.
Os que escolham a ribalta sempre,
só por acaso,
conseguirão acertar o passo com a História.
O princípio vale
para os políticos da democracia,
como para as instituições da democracia.
Algumas destas já fizeram a escolha pela ribalta,
como é o caso da nossa Assembleia da República.
Não há reunião de deputados,
por mais ou menos importante que seja,
que não esteja sujeita à regra geral da presença dos jornalistas.
Resultado:
Todos na ribalta.
Nenhum na História.










quinta-feira, março 22, 2007

O dia da falta dela




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Mas que distracção!
Que imperdoáveis distracções,
em cadeia.
Foi o dia do pai.
E eu distraído.
Não houve pai para mim!


Ontem, foi o dia de quase tudo.



Do sono.
De quem o tem demais.
E de quem o tem de menos.
E eu, que sempre o tive de menos,
Distraído.
A dormir na forma.
No único dia do ano,
em que as pessoas,
com problemas do sono,
devem estar
bem acordadas
em honra
do sono
que lhes falta,
nos outros dias.


Da poesia.
E eu,
que, à falta de poesia minha,
me alimento da poesia dos outros.
No dia dela,
tenho o mais prosaico
dos dias.
Sem eco dela.
Nem própria,
nem alheia.
Nem sequer,
a do sonolento e triste
Nobre
do verso-anúncio
"O melhor da vida
é dormir,
tudo passa
sem se sentir".

Da floresta.
Com todos aos gritos
audio-visuais:
Onde está a minha árvore?
Para plantar aonde?
Na floresta?
Não.
No provérbio.
Ao lado do meu filho.
E antes ou depois do meu livro.
Ou, na rede.
Para dar sombra benfajeza
ao blogue,
que já tenho,
ou hei-de vir a ter.
Mas,
hoje,
é que não posso
mais distrair-me.
Hoje, é o dia da água.
Melhor dito:
Da falta de água.
E porque é uma coisa que eu,
eu, por mim,
não sinto.
E, nunca, verdadeiramente,
senti.
Mas
500 milhões sentem.
Quantos?
500 milhões
de seres humanos
têm falta de água.
Repito.
500 milhões de homens.
500 milhões de homens e mulheres.
500 milhões de homens, mulheres e crianças.
500 milhões
Têm falta de água.
500 milhões
Têm falta de água.
500 milhões
Têm falta de água.
É por isso que

deve vir até este sítio

o dia mundial da água

E confirmar que

terça-feira, março 20, 2007

Mais dois fanáticos das Crónicas do Lobo



Gonçalo é "um grande adepto" das crónicas.
"Acho que são das coisas que vão ficar com mais força.
Ele consegue concentrar nelas uma intensidade literária e emocional que é muito rara.
Consegue violentar o leitor, no sentido de o sacudir.
É muito difícil emocionar na literatura e ele nas crónicas consegue emocionar mais.
Podem não ser tão trabalhadas como o romance, mas o leitor leva um safanão muito grande.
No romance há mais uma distância de contemplação.
Nas crónicas uma pessoa sente-se puxada para um ringue."


Neste corpo, as crónicas "são extraordinárias" e "têm uma leitura mais fácil" do
que os romances.
"Ele faz de qualquer fait-divers, da realidade mais banal uma
epopeia
.
Tudo lhe serve, qualquer coisa."


segunda-feira, março 19, 2007

Um Uivo do Lobo


Vou continuar a aproveitar o pretexto do prémio ao Lobo.
Aproveitar, para trazer aqui alguns exemplos,
escolhidos mais ou menos ao acaso,
dos uivos passados à escrita, deste grande,
senão único, exemplar, de verdadeiro lobo ibérico,
que é o escritor Lobo Antunes.
Por hoje,
que seja este:




quinta-feira, março 15, 2007

Atirem-se ao Lobo (Antunes)

Aproveitem a desculpa do prémio Camões,
e atirem-se à leitura de Lobo Antunes.
E se têm dúvidas por onde começar,
se sentem alguma alergia aos romances de mais 300/400 páginas,
comecem pelas crónicas.
Atirem-se a elas como lobos.
Verão que lhes ganham o gosto e o vício.
Tenho a certeza que chegarão a lamentar que sejam apenas três volumes.
Géneros menores?
De género menor, somos todos nós,
que para aí gatafunhamos em blogues,
jornais e quejandos.
É a hora do Lobo.
A ele!
Todos a ele!



Livro de Crónicas, 1995
Segundo Livro de Crónicas, 2002
Terceiro Livro de Crónicas, 2006

Na concisão das crónicas há uma concentração de elementos narrativos e uma definição de personagens que acho inexcedível. As crónicas são experiências de processos narrativos e de personagens que depois vamos encontrar com outro tratamento nos livros. São uma espécie de laboratório. A crónica não é, de todo, um género menor. É um género muito difícil para quem o pratica. O texto curto é tão difícil quanto o romance de 400 páginas. São técnicas complementares, não se excluem de maneira nenhuma. A crónica é outra coisa, mas menor nunca.


quarta-feira, março 14, 2007

O descrédito da justiça à portuguesa

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Há flagrantes da vida do nosso tempo que são mais instrutivos do que longos discursos, debates ou grandes discussões sobre um tema.
No caso em apreço, o flagrante é um "zaping" televisivo da noite de ontem, que me levou a um dos muitos programas das nossas televisões, com nomes bélicos (trio de ataque, no caso), e que, em sapientes grupos de três "experts," dissecam, implacavelmente, os males, passados presentes e futuros, do nosso futebol.
Na altura que entrei em "campo", Oliveira e Costa, conhecido responsável e apresentador de uma empresa de sondagens, falava de um relevante acontecimento não-desportivo que marcara a semana-desportiva anterior.
Refira-se, a talho de foice, que esta também é uma das mais notórias características do nosso inigualável mundo do desporto. As grandes questões em debate mediático no mundo do desporto raramente são de âmbito desportivo. A não ser que se circunscrevam às minudências televisivas dos erros dos árbitros contra algum dos três grandes, são declarações ou factos, que nascem nas páginas dos jornais, para nelas morrerem na semana seguinte, depois de acalorados e emocionantes duelos verbais entre personagens, que saem e entram na discussão, como actores num palco.
Mas qual era, então, o grande acontecimento que Oliveira e Costa, em cenário de fundo verde, na sua qualidade "televisiva" de sportinguista (por vezes até a gravata do "expert" também é da apropriada cor clubista) destacava na semana?
A revelação do verdadeiro "segredo de Fátima", desculpem, de um dos últimos dos grandes segredos deste transparente mundo futebolístico português.
A revelação, primeiro estampada na internet, depois com repetição exaustiva em toda a comunicação social, dos vencimentos dos jogadores do Sporting.
Sobre este facto fazia ele o seguinte raciocínio:
Em todos os tais grandes clubes portugueses de futebol, este é um segredo tão bem guardado, que, nem sequer, é do conhecimento de todos os membros das próprias direcções dos clubes.
Este segredo, até hoje mantido em inviolável reserva por todos os clubes, como é que, só no caso do Sporting, acabou nas páginas dos jornais?
Dedução de Oliveira e Costa:
Porque, em razão de um conflito, que, só indirectamente, envolveu o Sporting, mas se originou num diferendo entre um jogador do Sporting e o seu empresário, os vencimentos dos jogadores do Sporting chegaram ao conhecimento da justiça portugesa.
E esta só poude fazer aquilo que mantém como regra para todos os segredos de justiça: conseguiu fazê-los chegar à comunicação social.
Oliveira e Costa acrescentava que não tinha qualquer dado concreto, que lhe permitisse tirar esta conclusão, mas era a única que considerava plausível para o estranhno e inusitado acontecimento.
Penso que Oliveira e Costa, neste caso sem precisar de sondagens, nos fez um dos mais implacáveis e realistas retratos da imagem negativa que a justiça portuguesa tem, junto da generalidade dos portugueses.
Não só se revela incapaz de os defender, a tempo e horas, no exercício dos seus direitos, mas ainda os consegue privar daqueles que ela própria deve respeitar na sua actuação.

sábado, março 10, 2007

O Ruir de Lisboa

O ruir do país.
O ruir das pessoas em Lisboa.
O ruir das pessoas no país.
O retrato das pessoas,
de uma capital e de um país
no balanço literário de um tempo de desencanto.
O retrato de um país "deixado cair no meio da noite",
como uma das personagens de um dos contos de Teolinda Gersão.


Procure numa livraria perto de si.


Image-0289 Visão Online - JL - 
Contos do nosso mal-estar



Mas o tema mais forte para mim é o ruir de Lisboa.


Em Portugal atravessamos uma fase muito difícil.
Uma fase de grande desencanto,
de ausências de perspectivas,
de muito desemprego,
de todo o tipo de problemas sociais,
de percebermos que estamos na cauda da Europa,
de tanto esforço em vão,
de tantos sacrifícios pedidos sem as coisas evoluírem.
Estamos numa crise civilizacional e cultural terrível, e reconheço que há um lado sombrio no livro.
Embora haja também uma grande vitalidade, uma grande força e uma grande rebeldia.


Visão Online - JL - Contos do nosso mal-estar
(via Visão Online - JL - Jornal de Letras, Artes e Ideias - nº 950)

quarta-feira, março 07, 2007

Na Madeira, há vozes mas não há nomes

Há denúncias mas não há denunciantes.
Há críticas mas não há críticos.
Há um nome mas não há nomes.
Há eleições mas não há opções.
Há oposições mas não há oposição.
Há escolhas mas não há alternativas.
Há ressentimentos que dividem emoções,
não há descontentamentos que unifiquem vontades.
Se calhar, cada vez faltam menos coisas,
mas também cada vez mais
se lhes sente mais a falta.
Na Madeira, o labirinto parece certo e seguro,
e a saída incerta e insegura.
Resta aos madeirenses
(e só a eles)
um esforço mais
(ou muitos esforços mais)
para acelerarem a hora,
da transformação do incerto
em seguro
e do inseguro
em certo
.





DN Online: De Janina que nunca saiu da Madeira e da crítica a uma geração que alegadamente tem medo do 'on', segundo um jornal que colecciona processos na ilha


Há quem diga, no entanto, o que Janina não disse.
Que Alberto João Jardim foi "um pedaço agressivo na forma, que não precisava de chegar ao ponto a que chegou";
que a convocação de eleições foi uma estratégia política para benefício próprio e que pouco beneficia a Madeira".
É uma aluna da mesma universidade quem o diz, mas
sem revelar o nome,
porque essa revelação "poderia trazer-lhe confusões". "Preciso de encontrar trabalho, sabe."
E o anonimato é salvaguarda para quem denuncia, mas também faca em que um dos gumes pode servir o denunciado. Seja.
De qualquer forma
não há nome.
DN Online: De Janina que nunca saiu da Madeira e da crítica a uma geração que alegadamente tem medo do ’on’, segundo um jornal que colecciona processos na ilha


terça-feira, março 06, 2007

Da dificuldade(madeirense?) de compreender o parlamentarismo

Comecemos com exemplos concretos.

Um exemplo açoriano.
Em 1998, nos Açores, vivia-se em regime de governo minoritário do PS.
Em razão dos resultados eleitorais de 96, só com o apoio dos deputados do CDS/PP era possível aos dois partidos mais votados, o PS e o PSD, formarem maioria na Assembleia Regional.
É neste contexto que o líder do CDS/PP resolve retirar o apoio parlamentar que, até então, o seu Grupo Parlamentar havia dado ao PS e concedê-lo ao PSD.
Foi isto mesmo que ambos os partidos se apressaram a comunicar ao Ministro da Republica a quem, então, competia nomear e exonerar governos regionais.
Que fez este?
Lembrou-lhes (por estas ou por outras palavras) que, em regime parlamentar, a vontade efectiva de uma Assembleia nunca pode ser pressuposta, tem de ser, sempre, demonstrada pelos factos.
E que, em regime parlamentar, "o único facto" que conta é a vontade dos deputados, demonstrada em votos, e não aquilo que quaisquer líderes partidários, estribados em antecedentes, porventura, sem quaisquer excepções ou falhas, de férrea disciplina partidária, suponham dever deduzir-se.
O resultado é conhecido. A aventura do CDS/PP morreu na "praia", porque, nem ele nem o seu requestado parceiro do PSD se dispuseram a "mergulhar" nas "águas" da Assembleia Regional.
Outro exemplo mais recente, vindo de Itália.
Há duas semanas, o primeiro ministro italiano Romano Prodi apresentou a sua demissão ao Presidente da República porque, na sua opinião, deixara de ter condições para garantir apoio maioritário parlamentar, depois de perder no Senado o voto de confiança pedido para a sua política externa.
Que lhe lembrou o Presidente da República?
Lembrou-lhe (por estas ou equivalentes palavras) que só uma votação explícita, nas duas câmaras, sobre essa confiança, lhe permitiria tirar tal conclusão.
Assim o teve de fazer Romano Prodi.
E, hoje, continua Primeiro Ministro.
E óbvio que, em ambos os casos, o que interessa não é o desenlace concreto ocorrido em qualquer deles, mas o princípio aplicado em ambos.
Em regime parlamentar, em regime puramente parlamentar, em que a subsistência ou não de um governo, no caso italiano, ou da formação de um novo governo, no caso açoriano, nunca pode ser indiciada, suposta ou prognosticada, deve sempre ser testada, mais ainda em condições excepcionais de confiança ou censura de um governo ou de formação de um novo.
A pergunta que fica é se, no actual caso da Madeira, se respeitou esta regra.
É óbvio que não.
Mas é assunto para deslindar um pouco mais, em próxima oportunidade.

sábado, março 03, 2007

Escolher Bagdade para morrer


Este diário do director da biblioteca de Bagdade não necessita de palavras de introdução ou de comentário.
Só necessita de ser lido.
Faça o linque para o texto em Espanhol ou Inglês e leia-o.
Faça esse favor a si próprio.

ELPAIS.com -



SÁBADO, DÍA 10 El ser humano perfecto
No hay más noticias sobre la ejecución del bibliotecario ni el otro compañero desaparecido. He decidido poner en marcha un comité especial para investigar el caso.
Me doy cuenta, cada vez más, de que hoy en día, en Bagdad, el ser humano perfecto sería aquél capaz de desconectar todos sus sentidos. Estar ciego y sordo ya no es una maldición en este país, sino una bendición.
ELPAIS.com - "M. no viene hoy; dice que una bala perdida mató a su hija" - Internacional







Diary of Saad Eskander (Feb 2007)



I have come to realise that nowadays in Baghdad, the perfect human being would be one who can switch off all his senses. To be blind and deaf is not a curse anymore, but a blessing in disguise
Diary of Saad Eskander (Feb 2007)



/*

sexta-feira, março 02, 2007

Discursos (I) O Discurso Perfeito

É o minimo que se pode dizer do discurso de Paulo Portas, ontem.

  1. Pelo folhetim preparatório dos sucessivos anúncios, adiamentos e reanúncios.
    Que vêm de muito longe.
    Pelo menos desde a sua aparição e realce inesperado, em jantar natalício, promovido pela principal estrutura de qualquer partido na oposição: o Grupo Parlamentar do PP.
    Acrescente-que, num partido de quadros e de rarefeita implantação social. como é o PP, ser "dono" do grupo parlamentar é ser "dono" da imagem pública de um partido. O que é quase tudo o que um partido como o PP, na oposição, pode ter.
  2. Pelos cenários escolhidos.

Digo cenários, porque foram dois:
O Centro Cultural de Belém, em primeiro lugar.

A sala do CCB escolhida., em segundo.

Esta só podia ser a mesma em que começou a última corrida vitoriosa da direita portuguesa: a candidatura de Cavaco Silva à Presidência da República.
Assinale-se, desde já, que, com este cenário, Paulo Portas envia dois sinais àquele que ele julga ser o seu eleitorado (virtual, pelo menos). Que PP começa uma corrida que, para além do Largo do Caldas, visa Belém.
Que é ele  quem virá concretizar as esperanças mais inconfessadas mas mais profundas que a direita portuguesa personalizou em Cavaco Silva e que, hoje, vive em desilusões mal contidas, pela colagem  presidencial a Sócrates.

3.  Pelo pouco que disse, pelo  muito que subentendeu e ainda mais pelo que insinuou.

4. Por tudo isto, foi mais do que um discurso, foi um tiro de aviso.

  • Para Ribeiro e Castro?
    Não. Nem nele falou. Nem precisava. Portas não falou para quem (ele julga) que nem sequer chega a existir como obstáculo real. Ribeiro e Castro  não passa de um acidente no percurso de PP. Mero acidente. E apenas pelo lugar que ocupa. Não pela pessoa que é.

  • Para o CDS?
    Também não. O CDS é apenas um instrumento. O seu instrumento. O seu trampolim. Já o foi. Para tornar verosímil aquela pose de Estado que ele nunca mais despiu desde que exerceu funções ministeriais. E há-de voltar a ser. Para lhe graduar esta pose, de ministerial, em presidencial. 

  • Para Sócrates?
    Apenas para lembrar dele, aquilo que a direita que ele visa não encontra em nenhuma das suas actuais lideranças. A determinação. A segurança. A definição de rumos e metas precisas.

  • Afinal, Portas fez o discurso perfeito para quem?
    Para aquela direita profunda, sociológica e que diriamos portuguesmente secular, que já não se revê totalmente na sua última vitória (a de Cavaco) e que, neste momento, ainda está "lambendo" as feridas da sua última grande, enorme derrota ( para ela, a mais inesperada e traumatizante de todas as derrotas até hoje sofridas, porque mais cultural do que política) do referendo ao aborto.
    É desta direita que PP se quer o D. Sebastião.
    É para ela que PP pretende trazer os segredos mágicos da sua Arte do Estado. E para quem, até hoje, ele esteve falando da tribuna televisa do seu Estado da Arte.
     

quarta-feira, fevereiro 28, 2007

Duas Receitas para os Males da América

A receita de Bush:
mudar as outras democracias
ou mudar as democracias dos outros.
Agora chama-lhe:
"Diplomacia Transformacional".
Resumidamente, consiste em juntar,
em camadas sucessivas,
um militar e um diplomata,
um diplomata e um militar.
A outra receita não tem nome pomposo nem promotor oficial.
Resume-se a um velho ditado:
Médico, cura-te a ti próprio
.





La nouvelle doctrine de Bush, François Schlosser


La nouvelle doctrine de Bush.
L’Amérique de Bush ne pouvait pas en rester à ses terribles échecs en Afghanistan et en Irak. Les tapis de bombes ne suffisent pas pour transformer en démocratie un pays dictatorial ou un Etat failli. Il fallait changer de méthode et diversifier les actions destinées à rendre le monde meilleur.
Une nouvelle stratégie a été élaborée à Washington et les instruments bureaucratiques de sa mise en oeuvre sont déjà créés.
Il s’agit de promouvoir une « diplomatie transformationnelle » dont la mission sera de « stabiliser et de reconstruire » les Etats.
La nouvelle doctrine de Bush, François Schlosser



Cindy Sheehan, en guerre pour la paix, Jean-Gabriel Fredet
- Les Américains s’intéressent très peu à ce qui se passe hors de leurs frontières.
Demandez-leur de quel pays Paris est la capitale, très peu vous répondront.
Quand je leur parlais de la mort de mon fils cinq jours après son arrivée dans la guerre, beaucoup me disaient :
«La guerre, mais quelle guerre? Le Vietnam?»
Cela peut vous choquer mais, malgré le nombre de morts, beaucoup d’Américains ont eu du mal à réaliser que leur pays était en guerre
Cindy Sheehan, en guerre pour la paix, Jean-Gabriel Fredet

segunda-feira, fevereiro 26, 2007

França: A escolha entre dois modelos FEMININOS do exercício do poder?

LASTAMPA.it

Francese di ferro perché paragonato a Margaret Thatcher (la «Iron lady», la dama di ferro
LASTAMPA.it



Será mesmo este, o curioso e original dilema para as próximas presidenciais em França?
Pelo menos, tal é a leitura da batalha presidencial francesa vista de Itália.
De um lado, Sarkózy, o "francês de ferro," na peúgada do modelo inglês da "dama de ferro".
Do outro, Ségolene Royal, tentando abrir o seu difícil caminho, entre os chamados "elefantes" do PSF, desgastados na imagem e na doutrina, e o esquerdismo gratuíto da "esquerda muito parisiense e muito caviar"!
Curioso ainda o retrato-síntese que o biógrafo italiano de Sarkózy, nos traça do seu biografado:



sexta-feira, fevereiro 23, 2007

A lição Portuguesa

La leçon portugaise, Jean-Gabriel Fredet





Avortement


La leçon portugaise


La leçon portugaise, Jean-Gabriel Fredet







Já o disse e aproveito para repetir.
Há uma lição portuguesa, para a a Europa, sobre o modo de alterar, através de referendo, a legislação sobre o aborto.
O sentido dessa lição, na minha opinião, já o deixei dito em anteriores "entradas".
De França, chega-nos a ideia de serem tiradas outras lições.
É claro que, entre os derrotados do "Não", também têm aparecido tentativas de "tirar lições".
Por exemplo, alguns "cavaleiros do Apocalipse" fazem leituras tremendistas dos resultados nos Açores.
Leituras "à irlandesa".


É conversa para outra ocasião.




quinta-feira, fevereiro 22, 2007

A política "politiqueira" de Alberto João

 

Há quem comece a encontar virtualidades e até méritos na recente decisão espectacular de João Jardim, de se demitir para se recandidatar, em protesto contra a promulgação da Lei de Finanças Regionais.
Por exemplo, Pacheco Pereira e Lobo Xavier na Quadratura do Círculo de ontem.
Confesso que por mais voltas que lhe dê, não encontro naquela atitude nenhuma racionalidade que exceda os limites do gesto gratuito, da bravata descabida e do "a mim ninguém me mete medo","a mim ninguém me vira",  de tradução política do gesto, que utilizando linguagem do próprio Alberto João, se deve considerar de "testicular".
Ou seja, eu, Alberto João, num país de quem eu já disse que ninguém "os têm no sítio", eu, Alberto João, vou mostrar a todos que os tenho e da cor tradicional!

Ainda ontem lia, a respeito de alguém situado entre o mundo do jornalismo e da política, o seguinte retrato:
"Ele podia levar as pessoas a reagir de formas imprevisíveis; podia inventar questões e depois soluções - igualmente inventadas, mas nem por isso menos populares" 
Acho que estas palavras se aplicam como luva ao gesto de Alberto João.
Soluções inventadas para questões inventadas.
O mais fácil, provavelmente, de se fazer em política.
Pelo menos, muito mais fácil do que tentar encontrar soluções reais para problemas reais.
É este lugar ambíguo em que João Jardim se compraz em viver e arrastar os que com ele vivem e sobrevivem, entre ser notícia e fazer notícia, entre o palco da comunicação social e o palco da política pairando acima do mundo real e dos seus problemas efectivos. 

segunda-feira, fevereiro 19, 2007

As máscaras no carnaval da poesia

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Só mesmo Camões
é que podia conseguir,
num só poema,
no mesmo poema,
dar forma e expressão,
às duas grandes correntes,
mais antigas
e mais singulares,
da poesia portugesa:
A cantiga de escárnio e mal-dizer
e a trova de amor.

Por obra e mão dele,
cada um de nós
pode repetir
este milagre
de metamorfose
poética.
É só ler as "trovas" seguintes,
na vertical,
e teremos a cantiga de escárnio.
Ou, então, na horizontal,
isto é,
ligando cada verso
da estância da esquerda
ao verso respectivo
da estância da direita,
e teremos
a mais bela trova de amor.


É o carnaval da poesia.
Goze-o. O melhor que puder.
Este. E o do calendário.





sexta-feira, fevereiro 16, 2007

Renée Fleming Aniversário





No passado dia de São Valentim, ocorreu mais um aniversário da soprano americana Renée Fleming.

É uma data que merece ser lembrada, por aqueles que já conheçam algumas das suas gravações ou actuações.

Pode ser um pretexto a aproveitar, por aqueles que a não conheçam e tenham curiosidade ou desejo de fazê-lo.

Ou simplesmente, para aqueles que estejam pensando concorrer ao "um contra todos".

Para todos, será um nome a reter ou a recordar.

Aqueles que desejarem conhecer algo mais sobre a cantora podem aproveitar
esta página

Aqueles que desejarem ouvir algumas das suas interpretações podem fazê-lo nesta

outra página



Uma crítica a um dos seus últimos trabalhos editados pode ser
lida aqui

quarta-feira, fevereiro 14, 2007

O dia do amor ou dos amores ?

 

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Sim. Acho que é mais dos amores.
De seus enganos e desenganos.
De seus encontros e desencontros.
De suas angústias e enlevos.
Da sua importância e insignificância.
Da sua incerteza e contradições.
Da sua efémera perenidade.

 

Foi talvez por tudo isto;
Ou por nada disto;
Que me lembrei de Camões.
E da sua "cantiga"
de um "cantar velho,"
que, tempos atrás,
numa tentativa
de encontrar
a quadra perfeita,
descobri.

Trata-se de uma cantiga
com mote.
E com um mote ridículo.
Vejam só:

"Coifa de beirame
namorou Joane".


 

Mas deixemos
para trás o mote.
Nem precisamos de 
saber-lhe o sentido,
para perceber que,
mesmo sem
as referências ao mote,
nas "voltas"
da sua cantiga,
Camões surpreendeu
e registou
(genialmente)
todos
os caprichos,
as fantasias,
as incongruências,
os pequenos nadas 
 e os grandes arroubos
que definem
o amor
que fica
e os amores
que passam.
E o amor
que fica
nos amores
que passam.

 

 

 

Por cousa tão pouca
andas namorado?
Amas o toucado
e não quem o touca?

 

Amas o vestido?
És falso amador.
Tu não vês que Amor
se pinta despido?

 

Se alguém te vir,
que dirá de ti?
Que deixas a mi
por cousa tão vil!

 

Qem ama assi
há de ser amada;
ando maltratada
d'amores, por ti.

 

Eu não sei que viste
neste meu toucado,
que tão namorado
dele te sentiste.

Não sei de que vem
amares vestido;
que o mesmo cupido
vestido não tem.  

 

 

terça-feira, fevereiro 13, 2007

Aborto:Após o dia do Sim

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Para quem, como eu, antes do referendo, escreveu sobre este tema, justificam-se algumas considerações posteriores ao dia do Sim maioritário.
A primeira delas é relembrar que a vitória do Sim, num referendo sobre a IVG, e consequente alteração da legislação em vigor, no sentido favorável à despenalização do aborto, é um caso único na Europa. Pelo menos, na Europa.

Como já salientei, todos os exemplos anteriores, dos anos 80 e 90, na Europa, resultaram de referendos promovidos pelos movimentos e partidários do Não e o seu resultado final foi-lhes sempre favorável.
A democracia portuguesa protagonizou, assim, no passado Domingo, uma dupla singularidade.
É verdade, que o faz com um grande atraso temporal sobre os restantes países da Europa, que, já há muito, alteraram a sua legislação nesta matéria.
É verdade também, que a ideia do referendo, em 1998, foi engendrada por Marcelo Rebelo de Sousa, defensor do Não, e apoiada por António Guterres, igualmente partidário do Não, mas, a sua vitória, acabou por ser temporária, e o seu efeito reduziu-se ao adiamento de alguns anos, para a entrada em vigor de legislação que correspondesse ao sentir maioritário da sociedade portuguesa.
Neste aspecto, o fadário do Não tem sido sempre o mesmo.
Correr atrás da história e das transformações exigidas pela consciência social.
A segunda consideração a fazer sobre o tema é precisamente esta.
Qualquer legislação sobre este assunto, no sentido de romper com concepções com peso de séculos, na cultura, nos comportamentos e convicções religiosas dos portugueses, mas que não fosse, previamente, submetida ao veredicto final do conjunto da sociedade portuguesa, teria sempre a ensombrá-la, na sua aceitação generalizada e, sobretudo, na sua aplicação concreta, a dúvida, que os partidários do não, infatigavelmente, não deixariam de agitar, de ela corresponder mesmo ao sentir maioritário do país.
Esta dúvida metódica deixou de ter qualquer fundamento, com os resultados do referendo.


Mais algumas breves considerações sobre o caso dos Açores, que acabei por não fazer antes do referendo.
Faço-o agora.
Pode-se dizer que tudo o que o referendo revelou era previsível.
Elevada abstenção, esmagadora vitória do Não, algum progresso do Sim.
Realisticamente, não era possível esperar resultados muito diferentes.
Para mim, porém, há, ainda, dois sinais positivos.
Só ouvi a dois abencerragens do PSD, (Álvaro Monjardino e Reis Leite), uma referência à ideia de voltar a um comportamento, por parte do PSD, semelhante ao que teve, nos anos 80, aquando da aprovação na Assembleia da República da lei actualmente em vigor.
Apelar para as "especificidades" regionais (e para os resultados regionais) para que a legislação nacional nunca fosse aplicada na Região.
Sim, convém não esquecer que, figurões como Costa Neves, que, Domingo, lembravam a sua posição favorável à manutenção da lei em vigor, nos anos oitenta, faziam parte de maiorias e governos que defendiam que, nem a lei actual, que, agora defendiam, devia ser aplicada na Região.
A tal mesma regra de correr sempre atrás da História ou, neste caso, até contra ela.
Segundo sinal positivo.
Ao contrário do que aconteceu com os governos regionais do PSD, que, promoveram, activamente, o incumprimento, na Região, da lei actual, o Presidente do Governo Regional não deixou dúvidas sobre a sua intenção de cumprir e fazer cumprir a lei que resultar deste referendo.
Trata-se, apenas, de acertar o passo com a História.
Dados os antecedentes referidos, é de sublinhar.

sábado, fevereiro 10, 2007

Aborto: Na Véspera do Sim e do Não

 

Um sumário olhar sobre  a campanha.

A cisão que divide a sociedade portuguesa entre o sim e o não à despenalização do aborto, deslocou-se, entre 1998 e 2007, do interior do PS para o interior do PSD.
Dito de outra forma, enquanto, em 98, as vozes hesitantes ou favoráveis ao não, tinham ainda um peso significativo, no interior do PS, em 2007, passaram a ser claramente residuais e sem qualquer impacto no seu eleitorado.
No PSD, tudo leva a crer que se tenha passado precisamente o inverso.
Traduzindo ainda noutros termos, a cisão entre o sim e o não passou a fazer-se por dentro do eleitorado de centro direita e o mais fácil consenso de posições e de discurso passou a ser mais notório entre o eleitorado de centro esquerda.
Este último facto, aliado à circunstancia de o partido polarizador do centro esquerda ter uma posição de referência favorável ao sim e ser mesmo o promotor do referendo, ao contrário do seu rival do centro direita,  facilitou as condições de campanha dos movimentos do sim, embora me pareça que não chegou para a tornar nem mais activa nem mais eficaz.

Esta circunstância ainda, aliada a duas outras, à centralização da discussão directamente na despenalização e só indirectamente no próprio aborto em si, e à importância  que assumiu o debate televisivo (particularmente através do "Prós e Contras" da RTP 1, graças ao impacto do seu formato e credibilidade) e a própria internet, dificultou em muito o discurso e a actuação dos defensores do não que, fora do tema dilemático, não ao aborto, sim à vida, revelaram dificuldades evidentes em se sintonizarem com as preocupções reais do eleitorado, que se situam muito mais no "como" e nas condições, legais e outras, do aborto, do que na sua legitimidade ética e aceitabilidade social. 
Viram-se, assim, forçados a recorrer a sucessivas tácticas de ajustamento da sua campanha até acertarem no tom das modalidades intermédias de despenalização.
Neste contexto, parece razoável prever a vitória do sim, em termos políticos e de expressão do voto nas urnas, mantendo-se, no entanto, uma grande margem de dúvida sobre a mobilização para a ida às urnas, sobretudo, para se conseguir mais de 50% de votantes recenseados e arrumar, assim, em definitivo, e de forma única em toda a Europa, esta velha questão.
O caso dos Açores merecia uma referência, que espero fazer brevemente.      

quinta-feira, fevereiro 08, 2007

O blogue que incomoda Aqui e Agora

E deve incomodar muito gente,
além do Conselho Superior de Magistratura,
ao revelar consequências pouco conhecidas
da actual legislação portuguesa sobre o aborto.








Aqui e Agora



Em situações ainda menos frequentes, toda a população é chamada a pronunciar-se, em referendo.


É o que vai suceder agora com o aborto.


Em meu entender, trata-se de fazermos uma escolha.


Devemos ou não continuar a enviar a mensagem de que é proibido realizar abortos em Portugal?


Imagine-se um patrão sem escrúpulos.


Numa reunião de trabalho com outras pessoas, vira-se para uma empregada, que acaba de engravidar e dirige-lhe as seguintes palavras:- Já chegou a considerar a hipótese de abortar? Pense nisso…Este homem seria julgado em tribunal, por instigar à prática de um crime. Estaria a sugerir a prática do crime de aborto.


Numa sala de aula, um professor conversa com uma aluna adolescente grávida:- Já reflectiste sobre se a manutenção da tua gravidez vai ou não prejudicar os estudos?


Também ele seria arguido num processo-crime. E expulso da escola, em processo disciplinar.


Caso o aborto seja liberalizado, poderão ser efectuadas todas estas sugestões, conselhos e recomendações.


A mulher é livre de abortar. Todos podem aconselhá-la, tentar convencê-la e induzi-la em qualquer sentido.
Aqui e Agora

quarta-feira, fevereiro 07, 2007

A pergunta de 1998 e de 2007

É verdade.
O "não" anda a tentar inventar diferenças que, até historicamente, são insustentáveis.
A resposta às mesmas perguntas não pode ter um significado em 1998 e outro em 2007.

Veja as "diferenças", claramente vistas, entre a pergunta de 1998, que era esta:





Referendo de 1998



E a pergunta do referendo de 2007, que é esta:







Referendo de 2007

terça-feira, fevereiro 06, 2007

O "Não" trapalhão

O "não" ao referendo ao aborto do próximo fim de semana, está com uma tendência manifesta para as pequenas e grandes trapalhadas.

Exemplo de pequena trapalhada pode ser esta que já anotei no Epigrama.


Exemplo de grande trapalhada é a de tentar transformar totalmente o significado do "não," entre 1998 e 2007.
Em 1998, toda a gente entendeu (quer os adeptos do "não" quer os adeptos do "sim") que a vitória do "não" à resposta à pergunta feita ( exactamente a mesma, em 98 e agora) significava a manutenção da lei sobre o aborto, vigente desde 1984.
Alguns dos defensores do "sim" entenderam tanto assim, que, mesmo sem terem sido satisfeitas as condições jurídicas de obrigatoriedade do respeito pela decisão popular, a respeitaram ao ponto de se terem sempre recusado a alterar a lei, até novo referendo sobre ela.
Com estes antecedentes bem presentes na memória de todos, a que vimos assistindo, nos últimos dias de campanha, por parte dos defensores do "não"?
À tentativa de tudo baralhar.
De tornar o "não," exactamente igual ao "sim".
De tentar convencer o eleitorado que, votando "não," podem conseguir aquilo que só o "sim" pode obter: a alteração da actual lei.
De que, afinal, o referendo não se decide, como é da sua natureza, na escolha definitiva entre o "sim" a uma pergunta, ou o seu contrário, o "não".
Contra tudo o que os defensores do "não", sempre reclamaram desde 98, afinal, o "não" não é o contrário do "sim", é o "sim" menos qualquer coisa.
Sobretudo, se esse "menos qualquer coisa", não passar de uma menos que simbólica alteração da lei.
Afinal, o "não" dos grandes princípios está pronto a negociá-los com o "sim", a troco da tentativa de pescar alguns votos no campo do "sim".
Que "não" mais trapalhão!