quarta-feira, fevereiro 09, 2005

De regresso aos programas eleitorais



Voltemos, então, à "coisa" pública, depois destes dias de pausa para a "coisa" carnavalesca.
Demos de barato aquilo que todos, há muito, sabemos. Que as barreiras entre uma coisa e outra, raramente são assim tão evidentes. Sobretudo, porque, em ambos os casos, a máscara e o disfarce imperam.
Exemplifico. Por detrás do disfarce de um texto programático sobre as duas regiões autónomas dos Açores e da Madeira, em que elas se esperariam ver reflectidas por igual, é possível distinguir, segundo os partidos, aqueles textos que foram escritos de uma perspectiva madeirense ou açoriana e ainda aqueles que foram escritos de uma perspectiva, predominante ou mesmo exclusivamente, partidária ou governamental.
Os do PSD e do PS foram escritos de uma perspectiva muito governamentalizada, com esquecimento ou mesmo prejuízo da perspectiva partidária. Quanto ao local do "crime". O primeiro é de matriz madeirense e o segundo de marca açoriana.
O da CDU, como seria de esperar, tem cunho marcadamente partidário, mas é uma miscelânea em que se articulam mal a focagem madeirense e o contributo açoriano.
Nada continuo a poder adiantar sobre o programa do PP, porque a Internet e o site do PP, ora o geram ora o abortam! Hoje abortaram-no, mais uma vez. Que flutuante "barco do amor", me saiu este PP, nesta matéria!
Comecemos pelo caso do PSD.
Repete-se neste programa eleitoral aquilo que já aconteceu com a última revisão constitucional. O PSD dos Açores abdicou totalmente de qualquer posição própria, em favor da exclusividade da posição madeirense.
Esta triste situação, que subverte toda a tradição e percurso histórico das autonomias, que sempre foram, primeiro, pensadas e formuladas pelos açorianos, que sempre tomaram a dianteira no seu debate e sistematização, e eram, depois seguidos pelos madeirenses, é mais um dos lamentáveis fracassos da herança do actual PSD dos Açores.
O PSD de Victor Cruz não só está preso pelo cordão umbilical ao seu pai-fundador-dono-senhor Mota Amaral, o que o torna suspeito, ao mesmo tempo, a Santana e a Cavaco Silva, mas deixa-se comandar pelo primarismo ideológico do PSD da Madeira e pelo seu estreito quadro mental sobre a Autonomia.
A impressão digital do PSD da Madeira é mais que evidente em expressões como, o "PPD/PSD que, nas últimas décadas, demonstrou no governo de ambas as regiões"...
É evidente que só um texto escrito na Madeira, e mal corrigido por um funcionário qualquer do aparelho central do PSD, é que podia escrever uma frase dessas. A não ser que me convençam que o PSD dos Açores ainda pensa que esteve no poder... na última década.
Só da Madeira é que podem, igualmente vir referências à liderança das alterações constitucionais "de forma particularmente relevante na última revisão constitucional". Ou ao propósito de "completar a regionalização de serviços" ou à "linha de sempre de solidariedade com as Regiões Autónomas."
Qualquer uma destas miragens, só no indigente deserto intelectual e político madeirense é que podiam ter cabimento num programa eleitoral para vender a um eleitorado comandado há trinta anos pela forma mais castradora de pensamento único.
Pobre PSD-Açores, transformado em simples delegação do PSD-Madeira!
Quem te viu!... E quem te vê! Cada vez mais longe dos açorianos!

quinta-feira, fevereiro 03, 2005

Bloguismo, fenómeno duradoiro ou moda passageira?


A Mariana, no Ardemar do dia 31 de Janeiro, teve a gentileza de incluir o meu nome num grupo daqueles que costumo designar pela blogolândia insular.

A forma que encontrei para lhe agradecer a deferência, como caloiro do bloguismo que ainda mal acabou de ultrapassar o tempo "académico" da praxe, foi, em primeiro lugar, "roubar-lhe" a curiosa imagem do blogger.

Espero que a confissão espontânea me valha o perdão do atrevimento.

Em segundo lugar, deixar aqui duas reflexões sobre o fenómeno do bloguismo que me parecem curiosas. Pela formas diferentes que revestem e perspectivas antagónicas que expressam.

Uma, a forma poética e a perspectiva do blog-sucedâneo perecível do juvenil diário íntimo. Trata-se de um belo poema de Fernando Pinto do Amaral, no seu livro "Pena Suspensa".

O outro, é do conhecido editorialista Ignacio Ramonet, no número de Janeiro de "Le Monde diplomatique" , que situa o fenómeno no enquadramento da crise generalizada dos meios de comunicação social tradicionais. O link permite a leitura completa do artigo, que também pode ser lido na edição portuguesa do jornal. A transcrição que faço é apenas da parte respeitante aos blogues.

Fernando Pinto do Amaral

BLOG

Mantivera no fim da adolescência
o seu diário íntimo:
páginas manuscritas onde ardiam
rastilhos de mil sonhos que rasgavam
as mordaças da angústia social,
a timidez tão própria da idade.

Nessa caligrafia cuja cor
fora ainda a do sangue
colheu a energia necessária
para atravessar como um sonâmbulo
o ordálio daquela juventude,
o seu incandescente calendário
de amizades vorazes, tão velozes
como os amores que julgava eternos
e outras feridas mal cauterizadas.

Hoje quase não volta a essas páginas:
estamos no século XXI
e em vez do diário de outros tempos
mantém agora um blog
onde todos os dias extravasa
recados, atitudes, confissões,
coisas no fundo tão inofensivas
como o fogo que outrora lhe acendia
as frases lancinantes
- embora hoje em dia quando escreve
tenha por um momento a ilusão
de que as suas palavras continuam
a propagar ainda o mesmo vírus,
e a alimentar, quem sabe, os mesmos
sonhos
sempre que alguém desconhecido as ler
como quem só assim então escutasse
um segredo na noite do mundo.

Mas, apesar de todo o entusiasmo
que o mantém acordado por noites sem fim,
ele adivinha que também virá
um dia a abandonar sem saber como
o seu actual vício solitário
e dentro de alguns anos, ao reler
as frases arquivadas no computador,
talvez tudo isso lhe pareça então
fruto de gestos tão adolescentes
como os que antigamente preenchiam
esses cadernos amarelecidos
e hoje sepultados para sempre
em esquecidas gavetas de outro século.

(Fernando Pinto do Amaral, Pena Suspensa,Dom Quixote, Lisboa, 2004, pags. 28/29)


Ignacio Ramonet

"Il y a aussi le phénomène des « blogs », si caractéristiques de la culture du web, qui ont explosé partout au cours du second semestre 2004, et qui, sur le ton du journal intime, mélangent parfois, sans complexe, information et opinion, faits vérifiés et rumeurs, analyses documentées et impressions fantaisistes. Leur succès est tel qu’on en trouve désormais dans la plupart des journaux en ligne. Cet engouement montre que beaucoup de lecteurs préfèrent la subjectivité et la partialité assumées des bloggers à la fausse objectivité et à l’impartialité hypocrite d’une certaine presse. Et la connexion à la galaxie Internet à travers le téléphone-portable-qui-fait-tout risque d’accélérer encore le mouvement. L’information devient encore plus mobile et plus nomade. On peut savoir, à tout moment, ce qui se passe dans le monde."

Fica a pergunta: Bloguismo, moda passageira na vida de cada um e na sociedade de todos, ou fenómeno duradoiro?

Aceitam-se apostas.


terça-feira, fevereiro 01, 2005

Variações sobre Programas Eleitorais


No primeiro dia de um mês de eleições, pareceu-me boa ideia deitar uma olhadela ao tema da autonomia nos programas eleitorais dos diferentes partidos concorrentes à Assembleia da República e cujos programas estejam acessíveis na Internet.
Vou-me restringir, hoje, nestas variações iniciais sobre o tema, aos partidos com representação parlamentar.
Na página do PP, não consegui encontrar sinais de programa eleitoral, muito menos de regiões autónomas.
Vi muita gente com "pose" de Estado, mas ideias com "peso" programático, sobre o que quer que fosse, nem rasto. Provavelmente, andam todos muito atarefados no reino dos valores que, como se sabe, fica um pouco acima das ideias e um tudo nada ao lado das "poses". Se alguém der pela descida desses nefelibatas de novo estilo, ao mundo das ideias ou ao mundo dos simples humanos, agradece-se a informação.
Na página do Bloco, encontrei o programa eleitoral, mas também não consegui descobrir qualquer parte do mesmo dedicada às Regiões Autónomas.
E, na primeira leitura rápida do programa, só consegui descobrir duas referências, currente calamo, sobre as autonomias. Uma inócua, em que se menciona o contra-senso de colocar açorianos a votar sobre referendos relativos a outras regiões do país. Outra negativa, em que se faz menção de atitudes de João Jardim.
Para um partido, que começa a ter pretensões a ser algo mais do que uma variante com sucesso, das muitas modalidades europeias da "esquerda caviar", acho lamentável a ausência de discurso sobre uma das experiências mais importantes da democracia portuguesa.
Bem sei que, actualmente, a autonomia não faz parte do lote de temas com carácter fracturante, que é o grande prato de resistência do Bloco, que conseguiu roubar, com êxito, às "jotas" dos grandes partidos.
É natural que, quando o Bloco conseguir ultrapassar essas fixações juvenis da sua matriz original, finalmente descubra a autonomia, como algo que está para além das "jardinices" do Alberto João e das questões fiscais da Zona Franca da Madeira. Ainda não foi desta...
Em economia de ideias e de palavras sobre a temática autonómica, para, por agora, usar de uma expressão benigna, segue-se a estes dois modelos de não-discurso, a pobreza franciscana do discurso do PPD/PSD.
À primeira vista, custa a crer que o desenvolvimento do tema da autonomia e as perspectivas eleitorais imediatas sobre ela, seja mais anoréctido no Programa do PPD/PSD( invocá-lo com esta nova sigla faz parte do astral mágico do cantado "guerreiro menino") do que no programa do PS e do próprio PCP.
Para mim, não tem nada de estranho, porque é uma tendência que se vinha afirmando nos anteriores programas eleitorais do PSD.
Escrevi longamente sobre o assunto em eleições anteriores. Vou voltar a fazê-lo. Até porque é bem possível que estas "nuances" escapem aos nossos perspicazes jornalistas regionais. Como aconteceu em todas as situações anteriores.
Por agora, deixo-vos com o link para os - seis parágrafos seis - a que se reduz o "Contrato" do PPD/PSD com os açorianos.
Cinco são de auto elogio, com erros factuais à mistura.
O sexto tem duas promessas. Uma, sem conteúdo preciso. Noutra, propõe-se o PPD/PSD recuperar na, provável, oposição na Republica, aquilo a que se recusou no Governo: rever a lei de Finanças das Regiões.
E é tudo. O resto fica para a campanha eleitoral. Com cartazes, muitos cartazes. Slogans, muitos slogans. Mota Amaral, muito Mota Amaral! E pouco, muito pouco Santana nas regiões!
Note-se, ainda, que já não há qualquer referência à sacramental bandeira da extinção do, outrora, execrável Ministro da República. Nem às responsabilidades da República sobre os serviços e bens do Estado nas regiões autónomas. Nem sobre as próximas tarefas da Assembleia da República sobre o Estatuto e os sistemas eleitorais das regiões.



quinta-feira, janeiro 27, 2005

O Dia da Memória: Entre "A Vida é Bela" e "A Lista de Schindler"


É possível preservar aquilo que define o homem - o sorriso, mais do que o riso - no meio da mais desumana dor e angústia? Sim, é possível. Provou-o Roberto Benigni , em "A Vida é Bela", jogando a fraqueza da inocência infantil contra a força da máquina de morte das muitas "auschwitzes" do nazismo.
É possível manter abertas as portas da esperança, mesmo que muito estreitas, contra a fábrica do desespero consagrada na lei e no sistema social? Sim, é possível. Provou-o Steven Spielberg, com o exemplo de Schindler. A sua lista era uma "Arca de Noé", em que salvar apenas um homem ( e foram salvos muitos mais) era salvar toda a humanidade.
É possível manter reconhecível os traços do rosto humano e daquilo que, (nestes casos), eufemisticamente, chamamos natureza humana, mesmo à porta da câmara de gás e à boca do forno crematório? Sim, provou-o, entre outros, Primo Levi em "Se isto é um Homem".
Mas, para manter tudo isto possível, há uma condição que é absolutamente necessária. Que a memória não se perca. Que o esquecimento não apague a história. E há este risco social e histórico de lavagem da memória dos povos e dos indivíduos?
Por incrível que, à primeira vista, possa parecer, é esta mesmo a primeira tendência de qualquer povo, perante qualquer barbárie de que seja responsável. Não foi diferente com o povo alemão. Apenas porque vem a talho de foice, transcrevemos meia dúzia de linhas de um livro que merece passar a ser livro de cabeceira dos portugueses, que se preocupem em pensar-se como tais.
Refiro-me a "Portugal, Hoje, O Medo de Existir", de José Gil. Diz ele sobre este tema:
"Depois da Segunda Guerra Mundial, os alemães negaram-se a inscrever na sua existência como na sua história, o III Reich e o nazismo, reduzidos, durante décadas, nos manuais de História dos liceus, a um "episódio" referido em dez ou vinte linhas.
Esse "branco" ou lacuna invisível, ou não-inscrição, está ainda a ter efeitos imprevisíveis na sociedade alemã, não sendo sem dúvida alheio à subida do neo-nazismo".
Felizmente, essa tentação hoje parece superada, se considerarmos as cerimónias oficiais que, por estes dias, estão decorrendo na Alemanha e projectos, como o que encima este "post", do memorial do holocausto que, há dois anos, começou a ser erguido.
Neste caso, recordar é condição de viver!

quarta-feira, janeiro 26, 2005

Para a EDA, Luz é Nome de Estádio?


Segue a prometida irritação versejada para a EDA, e respectiva nota prévia.
Hoje, chamar-lhe-ia um "POSTEMA"... "avant la lettre".

Nota prévia. No passado Domingo, dia 20, pela manhã, vi que não tinha electricidade, em casa. Pensei, logo, num dos tradicionais cortes programados da EDA. Fui confirmar no jornal da Sexta Feira. Lá estava a habitual “ementa”, na nota informativa, com os cortes do fim de semana.
Mas, se eram todos no Concelho da Praia, como é que, na Vila de São Sebastião, não havia luz?
Reparei melhor. Lá estava São Sebastião, no Concelho da Praia, ao lado da Fonte Bastardo e Cabo da Praia.
Resolvi, então, desabafar, neste


POSTAL ABERTO À DONA EDA, S.A. ,

SENHORA (DA LUZ) APAGADA


Senhora EDA -
A da luz.
Dona EDA -
Nossa cruz.
Tia EDA,
Com arrojo,
Nos conduz,
Para um reino,
Algures,
Entre as trevas
E a(lguma) luz!

Na Terceira,
Entre cortes
E avarias,
As nossas vidas
Comandas.
Manhãs de Sábado,
Fins de semana,
São dias -
Velho fado -
Que, só tu,
Para todos,
Programas.


Na passada Sexta feira,
Em nota,
Mais que informativa,
De formativo
E administrativo
Teor e rigor,
Mais alto andaste,
Mais longe chegaste:
A velha Vila,
A de São Sebastião,
A da Salga, a da Mina,
A da Ribeira de Frei João,
A da Matriz, a do Império, a do Drumond,
Para o Concelho da Praia,
Regiamente,
Mandaste.
E a ele, soberanamente,
Entregaste.

Com moderação
E cautela,
Reconheça-se que o fizeste.
Apenas,
Entre as oito e as treze.
E, por tabela,
Como é tua histórica vocação,
Com corte programado.
Sem luz.
Como é tua secreta ambição
Para todas as freguesias,
Lugares e lugarejos
Desta, por ti, iluminada Região.

Todos sabemos.
Dia vinte
Do mês de Junho,
Já era histórica data,
Para a Praia.
É a data
Da Vitória de ser cidade.
No bolo do aniversário
Passou a ter,
A Praia,
Não, mais voltagem,
Não, mais um ampere,
Mas, mais uma vela,
Pela EDA
Ofertada.
Ofertada,
Mas apagada.

Todos confirmámos.
Quanto à luz,
Com a EDA,
Quer da lâmpada
Quer da vela -
É do estatuto dela -
Só fornece
E oferece
Apagada.



Vila de São Sebastião, 22 de Junho de 2004

segunda-feira, janeiro 24, 2005

É a EDA aquele monstro...

A EDA é uma das memórias mais incómodas da vida dos terceirenses. Porque parece requintar na sua capacidade de lhes desorganizar a vida. Na passada semana de 10 a 16 do corrente, voltou a fazer-me vítima dessa capacidade. A mim, e a muitos outros. Começou por me cortar a luz na manhã de Domingo e numa parte da tarde. Além disso, esqueceu-se de incluir São Sebastião nos anúncios que, na Sexta Feira anterior, publicou no Diário Insular.
Pequena distracção de escassa importância, perante as atribulações a que vem sujeitando, há longos anos, todos os terceirenses. Também concordo. Mas acho particularmente irritantes os erros evitáveis, sobretudo, quando se somam a muitos outros. Alguns deles, possivelmente, inevitáveis.
Para memória dessa pequena história de lapsos evitáveis, aproveito para deixar aqui o registo de dois lapsos anteriores. Um, que resolvi assinalar através de um requerimento que escrevi, como deputado, e que, em termos públicos, apareceu assumido pelos restantes deputados do PS da Terceira. O segundo, através de uma irritação versejada que publiquei nos jornais da altura dos acontecimentos. Nesta página pode conseguir-se o acesso ao requerimento e nesta ler a correspondente resposta do Governo Regional.
Para quem não se quiser dar ao incómodo do Link deixo aqui registadas as lancinantes perguntas gritadas à EDA:
  1. Porquê e até quando?
  2. Mas porquê e até quando?
  3. Meu Deus, mas porquê e até quando?
  4. Senhora EDA, mas porquê e até quando?

A irritação versejada segue na próxima entrada em versão integral, na impossibilidade de remeter para uma hiperligação.



domingo, janeiro 23, 2005

Ferreira Drumond - O Homem dos "Anais" e de muito mais


Francisco Ferreira Drumond, nascido na Vila de São Sebastião, na Terceira, em 21 de Janeiro de 1796, e falecido a 11 de Setembro de 1858, é conhecido, sobretudo, como autor dos "Anais da Ilha Terceira".
A passagem, na última sexta feira, de mais um aniversário do seu nascimento é pretexto para recordar a obra e o homem.
O facto de ocorrer também a passagem de 150 anos sobre a sua morte, dentro de três anos, recomenda que as entidades culturais ou outras, vocacionadas para a comemoração das datas importantes relacionadas com figuras de especial relevo da nossa história açoriana, como é o caso de Ferreira Drumond, comecem a pensar em iniciativas para lembrar aquela data.
Ferreira Drumond é considerado o maior historiador açoriano da sua geração e um dos maiores de sempre.
Duas características do seu método de escrever história se podem relevar nesta breve referência.
Em primeiro lugar, a sua preocupação metodológica de alicerçar a história no documento escrito, no texto do arquivo, no documento público ou privado, que permite elucidar os factos, as suas causas e circunstâncias e fixar a verdade histórica contra a deturpação da lenda e da frágil memória colectiva dos acontecimentos.
Em segundo lugar, a sua preocupação de escrever a história dos acontecimentos que narra, enquadrando-os na perspectiva global da história "das nove ilhas dos Açores"( como reza o próprio título de uma das suas obras) e na própria história do país.
Qualquer destas características conferem actualidade e perenidade ao homem e à obra.
Os possíveis interessados encontram aqui mais informações sobre Ferreira Drumond.

Post Poema Post Mortem

poema morto de ver morrer

Estranha obra
A obra da morte.
Estranha hora
A de ver morrer.

Sempre a esperança por não acontecer!
Sempre a surpresa por ter acontecido!

Estranha obra
A obra da vida.
Estranha condição
A contradição de viver.

Cede a certeza de para sempre ser
Perante a surpresa de se ver morrer!


quarta-feira, janeiro 19, 2005

O Venturoso Merceeiro de Votos e Lugares

Pois é. Falta a menção à terceira pessoa da dita "trindade" partidária.
Confesso que pensei reduzir essa menção ao título desta entrada. Deixando, assim, a quem lê-se o título, o trabalho de fazer o "link" mental para o respectivo personagem.
Vim a concluir depois, que valia a pena dar algum desenvolvimento ao título.
É que o personagem em questão tem, em elevado grau, a esquiva e sinuosa capacidade de fazer esquecer o objectivo central de todos os seus actos - a sua carreira política - por detrás da máscara da disponibilidade permanente para todos os lugares.
Até consegue disfarçar o seu egocentrismo radical, com atitudes de aparente disponibilidade para assumir lugares de menor relevo, desde que esse facto seja devidamente publicitado. Como acabou por acontecer neste Congresso, com a aceitação, por ELE, do humilde lugar de Vice-Presidente, no meio da multidão de outros cinco.
ELE que, (imagine-se só!) já foi Presidente do Partido! Claro, presta-se a ser humilde. Mas, como neste texto. Com "bold"! Só para ele!
Bem pode sentir e mostrar, perante os olhares fascinados e embevecidos dos açorianos, justificado orgulho desta santíssima humildade!
A mesma humildade orgulhosa ou orgulho humilde que o leva a dizer, depois dos lancinantes apelos do líder para a cruzada autárquica, que, do modo mais altruista e heróico, prefere correr o risco de continuar a ser Ministro da Agricultura do que prontificar-se ao passeio eleitoral, que, inevitavelmente, o sentaria na cadeira de Presidente da Câmara de Angra!
Para não alongar demasiado este "post", vou retirar da prateleira desta mercearia apenas o pernicioso artigo que justifica o título, que, aliás, remete para um venturoso rei da dinastia de Aviz, em cujo reinado Portugal se transformou na grande mercearia da Europa.
Este membro desta "santíssima trindade" partidária, atreveu-se a um negócio sem precedentes na história da democracia nos Açores.
Quem tem conhecimento das grandes aspirações da nossa autonomia e democracia açoriana, sabe a relevância que tem sido atribuída pelos agentes políticos à presença de representantes dos Açores nos órgãos de decisão e de representação do poder político da União Europeia.
Toda a gente sabe, igualmente, a luta que, por todos os partidos regionais, tem sido travada para se conseguir o reconhecimento nacional de listas próprias da Região nas eleições para o Parlamento Europeu, ou outra modalidade equivalente. Tal ainda nunca se conseguiu. Em alternativa e, por vezes com bastante resistência dos partidos nacionais, tem-se conseguido a representação de candidatos regionais, em lugares elegíveis nas listas dos dois maiores partidos nacionais.
É neste contexto, que este trinitário personagem, eleito nas listas do seu partido para o Parlamento Europeu, resolve fazer tábua rasa de tudo isto e sacrificar o seu lugar de deputado no PE, por troca com um lugar de Secretário de Estado no Governo da República!
Negócio absolutamente inqualificável! Mercearia vergonhosa!
A forma mais desavergonhada de sacrificar os intesses da Região e os votos dos açorianos ao exclusivo interesse da sua carreira política pessoal.
Desprezo pelo voto dos açorianos! Desprezo pelos interesses institucionais da Região! Desprezo pela consequência imediata de deixar a Região sem representação, junto do maior grupo parlamentar do PE! Porque a sua substituição não podia ser feita por outro candidato não-eleito da Região!
Desprezo pelas consequências a prazo, pelo descrédito que recai sobre a exigência de ter candidatos elegíveis nas listas dos maiores partidos nacionais, por este eleito da Região ter trocado o lugar para que pediu o voto dos açorianos e do país, pelo prato de lentilhas de um lugar secundário no Governo.
O que vale a este senhor, é a inversão e a subversão dos valores democráticos, de que o seu partido e alguma comunicação social tem sido lamentáveis arautos na sociedade açoriana! Houve mesmo comunicação social regional, que se deu ao descoco de o mencionar como uma das figuras em alta entre os açorianos!
O seu partido, nos Açores, já está sofrendo as consequências destas afrontas ao sentido de dignidade e justiça dos açorianos.
Pecebe-se, porque é que o personagem não está disposto a correr o risco de se sujeitar, tão cedo, ao voto dos açorianos! É mais seguro tentar Portalegre!
Desta "trindade", livrai-nos senhor! E ajudai os açorianos a continuarem a libertação que iniciaram em 96!
Nota final. A falta do nome do personagem neste texto não é distracção! É intenção!

segunda-feira, janeiro 17, 2005

O "Pigmalião", da "santíssima trindade" do PSD-Açores?

Não me parece que a relação entre a "criatura," que é o PSD-Açores, e o seu principal "criador", que é Mota Amaral, se possa definir em termos do célebre mito grego de Pigmalião e Galateia. Poderá haver alguns traços coincidentes nestes dois tipos de relações mitológicas (a de Mota Amaral com o PSD-Açores é também do domínio da mitologia), mas não me parece que o modelo-Pigmalião se lhe possa aplicar como chave da sua interpretação e explicação.
Para se perceberem melhor as coincidências e as diferenças entre os dois contextos mitológicos convém lembrar a descrição do mito de Pigmalião.
Eis a sua versão, nos termos em que vem descrito na "Enciclopédia Luso-Brasileira de Cultura" da Verbo Editora:
Pigmalião é um "Rei lendário de Chipre que, desgostoso com a infidelidade feminina, resolvera viver em celibato. Contudo, tendo-se apaixonado por uma bela estátua de mulher, que esculpira em marfim, obteve de Vénus que ela se convertesse em ser humano(...). Este mito está na base da célebre peça Pygmalion, de Bernard Shaw, e, consequentemente, da comédia musical My Fair Lady."
Parece evidente haver neste mito de Pigmalião um contexto de paixão e valorização da obra criada, por parte do seu criador, que me parece totalmente ausente da relação de Mota Amaral com o PSD-Açores. Esta parece-me muito mais perto de uma relação de fixação no papel de paternidade mal resolvida, que transforma o PSD-Açores em mero instrumento da carreira política pessoal de Mota Amaral e bloqueia a evolução normal e a autonomia do próprio partido.
Compare-se esta relação com os seguintes casos paralelos da vida política portuguesa e será fácil perceber os riscos e os danos emergentes que dela resultam para o PSD-Açores.
O PS, por exemplo, tem de aceitar como normais, os eventuais efeitos negativos que, para ele, resultem de tomadas de posição públicas de Mário Soares, enquanto cidadão com percurso pessoal próprio. Imaginem se, depois, tivesse ainda de o acolher como membro activo de congressos e na disputa de lugares de cabeça de lista em eleições legislativas? Já pensaram na hipoteca que isto representaria para o partido e, principalmente, para a sua liderança?
O mesmo se pode dizer de, por exemplo, Cavaco Silva, em relação ao PSD. Que danos incomportáveis não teria para o PSD nacional, se, além de ter de pagar os custos da sua condição de pré-candidato presidencial, como agora aconteceu com a questão do cartaz dos primeiros ministros do PSD, ainda lhe tivesse de reservar lugar, à frente do líder, na lista de Lisboa para a Assembleia da República?
Veja-se só o custo político que terá para Victor Cruz, caso, além da derrota previsível nas próximas eleições de Fevereiro, nem sequer consiga ser eleito, porque teve de reservar o lugar de cabeça de lista para o pai-fundador Mota Amaral. Pai-fundador que, cada título que junta ao seu palmarés pessoal, o de Presidente da Assembleia da República é o último, não o usa para fazer evoluir essa sua relação com o PSD-Açores, com ganhos de maior autonomia para os dois, mas para a fazer regredir com mais um laço de dependência mútua.
Pobre PSD-Açores e pobre Victor Cruz, reduzidos à condição de simples montra para a exibição dos títulos de glória de Mota Amaral!

sábado, janeiro 15, 2005

O Congresso da "santíssima trindade"

Quem diria, que o partido, que faz da autonomia dos Açores o seu título de glória, acabaria refém dos problemas de afirmação da sua própria autonomia em relação ao destino e carreira política de três pessoas.
Três pessoas que têm condicionado o futuro do PSD-Açores à gestão dos seus destinos pessoais.
Ninguém tem dúvida que o Congresso que ontem se iniciou só servirá para legitimar os destinos pessoais e as carreiras políticas futuras de Victor Cruz, Mota Amaral e Costa Neves.
Todos eles ligados ao PSD-Açores e à sua autonomia própria como partido, de uma forma pouco saudável para os destinos do mesmo. O que quer dizer, ligados de tal forma que criam no partido e nos seus militantes, a sedutora e fagueira ilusão de que, resolvidos os destinos destas três pessoas, o partido tem os seus próprios problemas também resolvidos.
O que é paradoxal, é que os maiores problemas do PSD-Açores são determinados, grandemente, pelo modo como estes três gloriosos personagens têm articulado os seus destinos pessoais com o do partido. E que se resume à incapacidade de fazerem as indispensáveis rupturas com o PSD-Açores que, a dupla evolução natural, (paralela, mas não sobreposta) de cada um deles e do partido, exigiriam.
Não é possível, nas dimensões da entrada para um blogue, desenvolver, por igual, as características próprias de cada um destes casos.
Vou tentar reduzi-las a alguns tópicos.
Victor Cruz é um líder refém do partido e das estratégias políticas do PSD nacional, sobretudo as estratégias de alianças eleitorais.
A pior coisa que pode acontecer para uma liderança partidária é transmitir ao partido a imagem de que, nem mesmo que o queira, o líder pode deixar de o ser.
Victor Cruz não só deu essa imagem, mas fez dela, a única singularidade nacional e regional da sua liderança. Será, para sempre, o único líder partidário vivo, condenado a ser líder. E não há pior condenação do que esta!
Haverá mesmo alguém que acredite em Victor Cruz, quando jura e trejura que bateu o pé a Santana Lopes, dizendo-lhe que nunca mais faria coligações nos Açores, em futuras eleições regionais, mesmo que o PSD nacional as fizesse? Não creio que haja.
O problema nem sequer é o da veracidade ou não deste facto. O problema é que, dados os antecedentes conhecidos, Victor Cruz não goza, perante os açorianos, de credibilidade suficiente para acreditarem nele, nessa matéria. Nem, acrescente-se, em nenhuma outra, que reclame autonomia, em relação ao "padrinho" do continente. Também esse património do PSD-Açores ele hipotecou nas últimas eleições regionais.
Que pior coisa pode acontecer a um líder político do que a incapacidade para ser credível, mesmo quando fale verdade? É o grau zero da credilidade política. Não se pode descer mais.
Já cheguei à conclusão que tenho de desistir de "encaixar" os outros dois elementos do "Trio", nesta entrada.
Vou acrescentar apenas mais dois tópicos sobre Victor Cruz.
Como é que se percebe que Victor Cruz diga que este Congresso não tem que se ocupar do projecto próprio do PSD-Açores para a sociedade açoriana? Porque isto já foi feito no último Congresso. E se mantém válido. Mas, então, Victor Cruz e o PSD-Açores utilizaram os três meses de hibernação, desde as eleições regionais de Outubro, foi a tentar varrer da sua memória que os açorianos rejeitaram, exactamente, esses projectos? Afinal, quem é que têm de mudar? São os açorianos ? Ou é o PSD-Açores?
O que Victor diz, por palavras, é que respeita e ama perdidamente os Açores e os açorianos. Mas a mensagem que lhes envia com atitudes como esta, é que eles estão enganados. Não é ele, Victor Cruz, que tem de amar os açorianos tal com eles foram há três meses ( e ainda hoje são). Os açorianos é que têm de vir a amar o Victor Cruz tal como ele era, há três meses! Está-se mesmo a ver quem é que vai levar a melhor neste (des)encontro de amores!
Felizmente, para o PSD-Açores, parece haver uma nova geração que não pensa como o seu líder sobre as temáticas para este Congresso. Veja-se aqui um exemplo.
Segundo tópico. Como é que pode ser o mesmo líder, que conduziu, até agora, uma política de renovação do partido, entendida da forma mais fundamentalista possível e que apadrinhou nalgumas ilhas, (Terceira, Flores, por exemplo) aquilo mesmo que Victor Cruz diz que ela não é- a decapitação - que propõe, agora, com a mesma convicção e expectativa milagreira, o seu contrário? Cada autarca tem de morrer no seu posto! De preferência, acrescento eu, embalsamado na gloriosa bandeira do partido!
Que o Congresso encontre um rumo para o Victor Cruz! É o meu voto de não-congressista, mas de açoriano, com direito às suas próprias expectativas, neste momento importante para a democracia nos Açores.

quarta-feira, janeiro 12, 2005

Derrota do PSD Com Cabeça Intacta

Até gostaria que o título que encima este texto fosse da minha autoria. Escrito hoje. Para definir a situação presente do PSD-Açores.
Mas não. Não é meu. Nem foi escrito hoje. Foi escrito em 1999. No dia 8 de Novembro, no diário "A União". E referia-se à derrota eleitoral do PSD-Açores para a Assembleia da República.
Mas porque misteriosa associação de ideias é que o título não me sai da cabeça e do ouvido? Precisamente, hoje.
Em primeiro lugar, porque quem anda, como eu, há vários dias, a rasgar velhos papeis, que, na altura, pareciam destinados à eternidade, e para os quais, hoje, só vejo um destino : o caixote do lixo, uma vez por outra, encontra nacos de prosa de surpreendente actualidade. Nalguns casos, como o deste título, mesmo espantosamente proféticos.
Até porque, no desenvolvimento do título, se sentenciava, citando, num rigor de análise auto-crítica surpreendente: "São vários os factores que contribuíram para que o PSD tivesse perdido as eleições, por isso, não existem motivos para pedir a cabeça de ninguém".
Em segundo lugar, porque ouvi o Victor Cruz, logo pelas oito da manhã, no nosso "Bom Dia" televisivo, a falar de muita coisa, e de muitas interessantes coisas, sobre o que é e o que foi, o que sente e o que sentiu, o que desistiu e consentiu, e o quanto resiste e confia e o que devem ser os líderes e como os gostam de ver os açorianos e o que devem ser os partidos e os seus membros e... e...e... Mas, nem uma só palavra, sobre os Açores e os açorianos. Os seus problemas e as soluções do PSD-Açores para esses problemas. Muitas palavras sobre quase tudo. Mas nada, nenhuma ideia, sobre aquilo que, para um partido de alternativa, deveria ser o centro de tudo: a sociedade açoriana e o seu futuro, segundo o PSD-Açores.
Voltei a ouvir falar sobre Victor Cruz e o seu PSD, e o PSD e o seu Victor Cruz, pela uma da tarde, pelas seis e meia da mesma tarde e pelas oito da noite, a seguir à mesma tarde do mesmo dia, e continuei, como açoriano que sou, a não ouvir uma única palavra sobre mim, na qualidade de açoriano, nem sobre qualquer outro açoriano, que não seja do PSD, dos TSD, da JSD ou de qualquer outra das siglas que restam, de ligação ao PSD num mundo açoriano, passado e ultrapassado, de hegemonia PSD.
Afinal, o problema do PSD não são as suas derrotas. É a sua cabeça "intacta". Antes das eleições de 1999. E depois das eleições de 1999. Antes das eleições de 2004. E depois das eleições de 2004. A sua cabeça "intacta". No que foi o PSD. E não, no que são, hoje, os açorianos.

terça-feira, janeiro 11, 2005

Duas Ideias ao Vento

Foi prometendo duas ideias "ventosas" que acabei o último "post".
É com o título de "duas ideias ao vento", que começo este.
Vou limitar-me a enquadrar essas duas ideias e, depois, enumerá-las e numerá-las, para melhor as destacar.

Enquadramento


No "Choque de Gerações"da passada semana, foram adiantadas duas ideias sobre a alteração ao sistema eleitoral regional, proposta pelo Grupo Parlamentar do PS-Açores, na última legislatura da ALRA.

A fazer fé na primeira dessas ideias, o sistema proposto implicaria o aumento do número de deputados da Assembleia da Região.

Tendo em conta a segunda, o novo sistema proposto seria apenas uma das muitas variantes do método de aproveitamento dos restos dos votos não atribuídos aos diferentes partidos, que ocorrem sempre na aplicação dos cálculos baseados no método de Hondt. Esta ideia já teria sido repetidamente estudada nas muitas comissões que, sobre a matéria, se sucederam na ALRA. Portanto, nem sequer se distinguiria por particular originalidade.

Confesso que, há distância de uma semana, já não me recordo se as duas afirmações foram feitas pelo mesmo participante no "Choque."
Pouco interessa para o fim que tenho em vista. Que é o de não deixar acumular dúvidas ou incorrecções sobre este assunto, que é previsível virem a suceder-se nos próximos tempos. Fiquei também com a convicção que aquelas afirmações resultavam apenas da falta de conhecimento pormenorizado do referido sistema.
Permitam-me que acrescente que, como fiz parte de todas (ou quase todas) as Comissões que, nos últimos 20 anos, trataram deste assunto na ALRA, sou-lhe particularmente sensível.

Numeração e Esclarecimento

Transcrevo do texto que tenho à minha frente, antecedido de uma nota que diz: "Versão entregue aos partidos da CERSE (Comissão Eventual para a Revisão do Sistema Eleitoral) , em 11-12-2003)".
  1. "O sistema pode ser realizado, alternativamente: aumentando o número total de deputados (dos actuais 52 para 57, com um círculo de compensação de 5), mantendo a actual distribuição de mandatos por ilha. Reduzindo o número de deputados hoje atribuídos às ilhas ( por exemplo, retirando 1 a cada, menos ao Corvo; ficando a ALRA com 49 deputados -44+5)".
  2. "O apuramento (para o círculo de compensação) é feito da seguinte forma: Soma-se o número total de deputados eleitos pelos partidos nos nove círculos de ilha; A plica-se o método de Hondt ao resultado agregado da votação na região de cada partido; Dos quocientes assim obtidos, são eliminados, para cada partido, tantos quantos os deputados já eleitos nas ilhas; são atribuidos os mandatos do círculo de compensação aos maiores quocientes, depois de feita aquela eliminação."

domingo, janeiro 09, 2005

Ideias ao Vento

  • Da comunicação social açoriana, de fim e princípio de ano, fixei-me nalgumas coisas que me parecem merecer registo.
  • Os balanços e juízos do ano que acaba, parecem estar a passar de moda, na comunicação social regional, a avaliar pelo tratamento dado ao passamento de 2004. As previsões sobre o ano que começa, há muito que passaram para a abertura dos poucos almanaques que ainda restam. O "Deus super omnia" sobre os anos que vão passando, arrisca-se a não encontrar nem almanaques para o abrigar.
  • Que me tenha apercebido, apenas os dois diários da Terceira mantiveram o estilo tradicional do jornal dedicado aos mais importantes acontecimentos e figuras do ano. Não me refiro ao habitual estendal dos acontecimentos regionais, nacionais e internacionais, alinhados com segura sucessão cronológica. Mas àquela preocupação de deixar para a posteridade o nome das personalidades e dos acontecimentos que, os jornais, sobretudo os jornais, têm o fito de libertarem da lei da morte anual.
  • Talvez, porque a conjuntura não favoreceu este entretenimento jornalístico de fim de ano como sinónimo de fim de festa.
  • A nível internacional, porque o maremoto do sudeste asíático, criou um novo tema para competir dramaticamente com a maior árvore de Natal, a disputa dos Pais-Natal para o Guiness ou as queixas dos comerciantes sobre a queda do poder de compra e das Cassandras natalícias sobre o excesso de consumismo.
  • A nível nacional, porque as peripécias "santaninas" de um governo de lances e personagens de opereta, a oscilar entre o caricato da falta de sentido de Estado do clã santanista (incubadora, ambulância, a Assembleia posta ao nível "interessante pfu"! ou "não-interessante pfu", de um chá das cinco na "Linha") ; ou o exibicionismo "poseur" do Paulo Portas, que usa o sentido de Estado como se pode usar gravata de seda ou fato de fino corte. Para a fotografia e para as câmaras televisivas, e que, se percebe, que "despe" logo de seguida.
  • A nível regional, porque o verdadeiro acontecimento do ano foi o grande embuste da comunicação social sobre o resultado das eleições regionais. Só pode ser para se manter firme nessa postura que há órgãos de comunicação social que continuam a classificar "sem sombra de dúvida" que " O PS surpreendeu toda a gente com uma vitória histórica".
  • Conclusão rigorosa, mas não convincente. Afinal, os senhores jornalistas, mesmo quando pensaram o contrário de toda a gente, continuam a considerar-se os porta- vozes "de toda a gente"! E esta, hein!!!
  • Também, enfim, as minhas ideias ao vento, não "ventaram" por tantas paragens como eu próprio pensei, ao iniciar este "post"! Mea Culpa! O próximo, garanto que será sobre duas ideias mais "ventosas".

sábado, janeiro 08, 2005

Clareando Ideias

Circunstâncias várias impediram-me, esta semana, de prestar a atenção habitual a este blogue e aos comentários que foram sendo feitos ao último "post" do dia quatro.
Vou aproveitar este texto, para tornar mais clara a perspectiva em que situei as minhas considerações, sobre a aparente (ou real) anomalia social, representada pela atitude geral da comunicação social regional (e não só), na cobertura das passadas eleições regionais.
Pode resumir-se assim. Como foi possível à comunicação social, no seu conjunto, cair no erro de palmatória, de considerar com iguais probabilidades de êxito, o partido que acabou por arrancar uma vitória arrasadora e as forças políticas que foram esmagadas por uma derrota escandalosa?
Pelos comentários que me foram chegando, fiquei com a impressão que as pessoas consideraram esta forma de colocar o problema, ou irrealista (sonho romântico) ou redutível à tentação de "tabloidização", que varre todos os média, (criar "suspense", mesmo contra os factos), ou então, à capacidade manipuladora da chamada "máquina laranja"(duas máquinas, por sinal, a nacional e a regional).
Não me parece que qualquer destas explicações seja suficente para explicar e, muito menos, permita considerar supérflua, redundante ou inexistente e meramente formalista ou sem conteúdo efectivo, a questão posta naqueles exactos termos.
Irrealista ou romântico seria reclamar para a comunicação social qualquer pretenso objectivismo total que impediria a diversidade de opiniões. A questão é precisamente ao contrário e a contrária. O que faltou foi a diversidade de posições. Construiu-se, ficcionou-se, "misterioso" e tendencioso unanimismo, contra a realidade, posteriormente, revelada pelas urnas. Mas que já existia na sociedade. O surpreendente está na cegueira da comunicação social para, dessa realidade, ter o menor vislumbre. O problema aqui é o da do unanimismo na cegueira. Não, da eventual diversidade de opiniões explicável à luz de interesses também vários.
Quanto à capacidade manipuladora, como é que se explica que ela tenha sido tão eficaz com os jornalistas açorianos e tão ineficaz com os restantes açorianos? Só admitindo que os nossos jornalistas são os mais "tontinhos" de todos os açorianos. Rejeito, com toda a veemência possível, tamanha monstruosidade. Ou cinismo. Ou desconsideração.
Pelo que respeita à tentação do "tablóidismo", ocorre perguntar. Porque é que a ninguém, a nenhum jornalista, no caso, ocorreu tentar o "suspense" (que é sempre a ruptura com o previsível) contra a opinião dominante ? Teria conseguido uma dupla vitória. Criar o suspense e acertar!

terça-feira, janeiro 04, 2005

O IMPREVÍSIVEL OU O INDESEJADO?

Em anos, como o que agora se inicia, em que as eleições vão ocupar a parte de leão do nosso tempo cívico de cidadãos, não convém deixar acumuladas dúvidas, vindas de eleições anteriores, que, não sendo resolvidas ou, ao menos, conscientemente formuladas, acabem por ofuscar e prejudicar a clareza das nossas próprias opções, nesses futuros actos eleitorais.
Penso mesmo que o facto de, em Portugal e na Região, tradicionalmente, se negligenciarem e descuidarem essas questões e se cultivarem atitudes de despreocupação até para o simples enunciado desses temas, contribui para a criação do clima generalizado de cepticismo em relação ao exercício do direito de voto.
O voto acaba por assumir o aspecto caricato de uma verdadeira lotaria, em relação a cujo resultado, acabam por falhar escandalosamente, precisamente aqueles instrumentos que a sociedade considera os intérpretes orgânicos do pulsar das suas tendências mais autênticas, e em que delega, implicitamente, essa função de lhe devolver uma leitura, tendencialmente aproximada e o mais rigorosa possível, dessas tendências sociais subjacentes ou profundas.
Estes intépretes intérpretes são precisamente as sondagens e a comunicação social.
É caso para perguntar. Se eles mostram que, nem para isso servem, quando há um controle posterior das suas previsões, então para que servirão?
Um dos enigmas que, pessoalmente, me intriga, desde as últimas eleições regionais de 17 de Outubro do ano passado, pode assim resumir-se.
Creio que todos (ou quase) concordarão comigo que, na sociedade açoriana, em 2004, se encontravam em pleno funcionamento os mecanismos de transparência democrática que permitem (devem permitir) aos cidadãos tomar consciência do pensamento dominante da sua população, em relação às opções politicas em confronto.
O poder político instituído na Região, representado pelo PS-Açores e o seu Governo, não dominava (nunca dominou nem domina) os aparelhos ideológicos fazedores de opinião, como a RTP/Açores, a RDP/Açores e os restantes órgãos regionais da comunicação social escrita e falada.
Este habitual factor de distorção da compreensão da realidade social, nos seus aspectos menos superficiais, também estava arredado. Também julgo que a maioria das pessoas partilharão comigo esta opinião.
A longuíssima pré-campanha eleitoral, que se arrastou por cerca de um ano (desde que PS e PSD realizaram os respectivos congressos, nos finais de 2003) e a disputadíssima campanha eleitoral, decorreram em condições de plena utilização de todos os trunfos disponíveis por parte dos participantes. Em particular, dos dois maiores. Em particularíssimo caso, do segundo maior - O PSD e o seu bebé-proveta, que nisso empenhou passado, presente e (suspeito) que o futuro.
Neste contexto de mercado político de concorrência perfeita (ou quase), que os economistas, em vão, procuram para a sua área de análise e previsão, como é que foi possível manter de pé, durante toda a fase final da disputa eleitoral, a simulação de um confronto com resultado incerto entre os dois principais adversários? O PS e a Coligação Açores?
Como é que foi possivel, que o jornalismo exercicido nessas condições, se possa ter feito eco, sem excepção relevante, de que aquelas duas forças políticas se encontravam em pé de igualdade, quanto ao resultado final e que até, com mais probabilidade, apontasse para o favoritismo da Coligação?
Neste "post", que já vai longo, fico-me pela pergunta.
Mas voltarei ao assunto. Não, necessariamente, para uma resposta cabal. Seguramente, pelo menos, para o esboço de um modelo de método para encontrar a possível resposta.

segunda-feira, janeiro 03, 2005

A "BRINCADEIRA" de 2004




Não consigo libertar-me de 2004. Dentro de mim, não o consegui apagar, quando rasguei a última página do calendário.
O pior é que, por mais voltas que dê às minhas memórias de 2004, sobretudo às minhas memórias televisivas, não consigo fugir a esta imagem.
Nem o maremoto de imagens televisivas da tragédia asiática de 26 de Dezembro, que nos vem chegando em crescendo. Precisamente o contrário do que habitualmente acontece com as catástrofes de dimensão histórica na era da televisão. Que costumam sacudir-nos em decrescendo, até se esvairem numa referência sem imagens na cauda de um telejornal.
Nem mesmo esta circunstância consegue apagar ou diluir da minha retina esta imagem, a crueza desta imagem, a pornografia moral e cultural desta imagem.
O que podem fazer dois seres humanos com uma coleira? Só uma brincadeira. Só podem fazer uma brincadeira.
Uma brincadeira, como aquela que deu origem ao romance de Milan kundera, com este preciso título: A BRINCADEIRA.
O próprio Milan kundera resume o tema do romance:
"Na "Brincadeira", Ludvik vê todos os seus amigos e condiscípulos levantarem a mão para votarem, com enorme facilidade, a sua exclusão da universidade, arruinando assim a sua vida. Tem a certeza de que eles seriam capazes, se necessário, de votarem com a mesma facilidade o seu enforcamento. Daí a sua definição do homem: um ser capaz de, em qualquer situação, enviar o próximo para a morte."
Quantas páginas do calendário terei de rasgar ainda, até me reconciliar totalmente com este "ser capaz de, em qualquer situação, enviar o próximo para a morte", que 2004 me gravou no mais fundo de mim próprio?

sexta-feira, dezembro 31, 2004

MAS A PALAVRA, SENHORES, PORQUÊ?

Neste último dia de 2004, em que a PALAVRA - em que tudo o que é próprio do homem começa e acaba- revelou a sua OMNIPOTÊNCIA, do nada criando mitos e guerras (armas de destruição maciça/petróleo por alimentos; Cimeira de guerra/Cimeira de paz; Cimeira dos três/Cimeira das Lajes (são quatro); arguidos/vítimas, unilateralismo / multilateralismo, etc. etc.) e a sua IMPOTÊNCIA, perante a tragédia asiática desta última semana do ano, deixemos que, da PALAVRA de dizer e de silenciar, nos fale o poeta EUGÉNIO DE ANDRADE.


AS PALAVRAS



São como um cristal,
as palavras.
Algumas, um punhal,
um incêndio.
Outras,
orvalho apenas.
Secretas vêm, cheias de memória.
Inseguras navegam:
barcos ou beijos,
as águas estremecem.
Desamparadas, inocentes,
leves.
Tecidas são de luz
e são de noite.
E mesmo pálidas
verdes paraísos lembram ainda.
Quem as escuta? Quem
as recolhe, assim,
cruéis, desfeitas,
nas suas conchas puras?



O SILÊNCIO



Quando a ternura
Parece já do seu ofício fatigada,
e o sono, a mais incerta barca,
inda demora,
quando azuis irrompem
os teus olhos
e procuram
nos meus navegação segura,
é que eu te falo das palavras
desamparadas e desertas,
pelo silêncio fascinadas.
(As minhas desculpas, por não ter conseguido respeitar a disposição gráfica original dos dois poemas. O meu (des)conhecimento dos segredos do html não chegou para mais)

quarta-feira, dezembro 29, 2004

O CHOQUE DE COINCIDÊNCIAS!

Não faço a menor ideia se a última edição do "Choque de Gerações" ficará na história da nossa regional RTP.
Até porque não tive oportunidade de assistir ao programa desde o seu início.
Mas assisti ao suficiente, para testemunhar uma singularidade que o mínimo de pudor profissional e respeito pelos espectadores obrigaria a evitar.
A chamada reportagem de rua, sobre a personalidade do ano nos Açores, além de ter sido feita de modo a provocar situações que induziam o desrespeito total do repórter pelas pessoas entrevistadas e pela credibilidade do seu próprio trabalho, foi da responsabilidade de um repórter com estreitas ligações familiares a um dos nomes que veio a ser mencionado nessa entrevista como possível candidato ao título de figura açoriana do ano !
É evidente que toda a gente ficou "convencidíssima" de ter sido ao acaso da rua, que o repórter entrevistou essa pessoa, ainda bem recentemente alto dirigente e representante do mesmo partido do seu familiar. E que, toda a gente também percebeu que foi com a mais santa das ingenuidades que aquele ex-dirigente deixou cair o nome do familiar do repórter!
Tudo isto com intervenientes que trazem a marca de um passado lamentável nesta área do favorecimento familiar!
É de enaltecer o esforço partilhado, de inovação e reformulação em diálogo com sectores interessados, que os responsáveis e alguns participantes do programa têm desenvolvido. Se não for por outras, ao menos por esta razão, o programa pode prenunciar um novo esforço da regional RTP para fugir ao seus tradicionais figurinos estereotipados e burocráticos.
Aparentemente, porém, parece haver pessoas interessadas em que o programa acabe por ter lugar reservado na históriatelevisa televisiva por outras muito más e lamentáveis razões!
Chega, de regionalização do disparate e de falta de senso!

CICLONE (de gralhas) EM DEZEMBRO

Estou em dívida comigo próprio em dois "post" sobre as malfadadas gralhas.
Este é o primeiro.
Devo este primeiro, por respeito a um comentário do Cristóvão de Aguiar sobre as "gralhas insolentes".
Bem sei que é com atraso pouco cibernético que volto ao assunto, mas julgo que convém fazê-lo, porque podem ter ficado na mente de quem nos tenha lido, mais dúvidas sobre a matéria do que aquelas que eu ou o Cristóvão de Aguiar, decerto, desejaríamos.
Não pretendo alimentar qualquer polémica sobre o tema com Cristóvão de Aguiar, com quem venho tentando aprender a bem-escrever português, pelo menos, desde "A Semente e a Seiva". Há mais de um quarto de século, portanto.
Posso ter sido mau aluno, mas tal nem significa que não tenha direito a opiniões próprias sobre o assunto ou que, exprimindo-as, esteja a tentar "ensinar o Padre-Nosso ao Vigário".
No meu "murganhito, "encontrou Cristóvão de Aguiar várias maleitas.
A que considero mais importante é a que se relaciona com as duplas Forum/Fora e Curriculum/Curricula.
Nenhuma das consultas feitas (e foram várias) abonam em favor da opinião de Cristóvão de Aguiar. Ambos os termos ou são considerados palavras invariáveis, quando aportuguesados ou, se utilizados no plural, deviam sê-lo segundo as regras do português (foruns ou curriculuns, por exemplo), mas nunca usando o plural latino.
Esta opinião é a aceite e fundamentada no Ciberdúvidas do SAPO, como pode ser comprovado nos linkes seguintes: forum e fora, curriculum e curricula.
Para quem não se queira dar ao incómodo dos linkes, acrescento apenas que faz tanto sentido usar "fora" ou curricula", como usar "memoranda" a fazer de plural, em vez de "memorandos". E que o "Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa", que regista cerca de 30 acepções diferentes da palavra "fora", não a refere no sentido de plural de "forum". E o "Houaiss" é considerado o mais exaustivo dos actuais dicionários da lusofonia.
Quanto às restantes "morganhices" do meu texto, que a inquisitorial ratoeira do Cristóvão teria apanhado, não me parece necessário convocar um ou vários "forum" de linguística, por causa delas. Ou invocar um ou vários prestigiados "curriculum" para o efeito.
Assinalo apenas que "clima", no sentido de "ambiente", é registado por todos os dicionários que conheço, e não consta ter sido acusado de "brasileirismo foleiro", por exemplo, o "Grande Dicionário da Língua Portuguesa", de José Pedro Machado, ainda mais, abonado com o nome da "Sociedade de Língua Portuguesa."
Também não encontrei qualquer fundamento, para condenar expressões como "tolerante para" ou "pode dispensar". Nem sequer, nenhuma, das muitas e contraditórias regras para o uso do hífen, me obriga a escrever boa-fé em vez de boa fé.
Mantenho o entendimento que devem, todas elas, ser consideradas matéria de livre opinião, e não de qualquer decisão ex cathedra de nenhum "forum" de um só perito, ou de vários, com importantes curriculum/currículos.
Para todas estas questões, e muitas outras, remeto os interessados, para o já referido Ciberduvidas.sapo.pt.
Para algumas das questões atrás referidas podem ser "clinkados" os linkes seguintes: clima, pode dispensar, regência das palavras, uso do hífen, hífen e o novo acordo.
Quem ainda estiver com disposição para uma leitura sobre temas afins desta problemática pode ler Português- língua abastardada.com.

sábado, dezembro 25, 2004

O NATAL DE "VER"

O Natal é uma daquelas datas, à qual nunca consegui ficar indiferente, mesmo naquelas fases da vida em que tudo se põe em questão. Este carácter intangível da data mantém-se na família. Com toda a sua miscelânia de versões tradicionais e modernas. O presépio convive com a árvore de natal. O pinheiro natural, com o seu sucedâneo de plástico. As séries cintilantes da árvore, com as velas no fundo da gruta com a trindade humano-divina de Jesus, Maria, José e a trindade animal do burrinho, da vaquinha e da ovelhinha. Não esquecendo a trindade régia do Gaspar, Belchior e Baltasar.
Mas o que eu pensava trazer para este "post"não era esta minha vivência pessoal da data, mas aquilo que julgo serem as suas raízes, pela pena de um nome quase completamente esquecido da literatura portuguesa.
Trata-se de Brito Camacho (1862-1934), que foi importante político da primeira república, jornalista e prolífico escritor.
A sua obra de contos "De Bom Humor", abre com um conto intitulado "A missa do Galo", de que transcrevo a passagem que originou o título deste "post".
" Havia sempre, no pequenino rancho, quem perguntasse à comadre Antónia porque se chamava àquela cerimónia a missa do galo, e porque era ela dita à meia noite, quando todas as outras missas eram ditas, as do domingo, das onze para o meio dia, e as da semana logo de manhã cedo, frequentadas estas só pelas velhas.
A comadre Antónia explicava:
- O menino Jesus nasceu à meia noite; a missa que se diz a esta hora é em acção de graças pelo seu nascimento. Os galos não costumam cantar tão cedo; mas naquela noite, mal souberam que o menino tinha nascido, desataram a cantar. Quando o menino fez um ano, rezou-se a primeira missa da meia noite, e um galo, sem ninguém saber donde tinha vindo, apareceu na cabeça do padre, cantou como fazia na capoeira, e desapareceu como tinha vindo, sem ninguém saber para onde foi.
Em você sendo grande - dizia a comadre Antónia, virando-se para mim - verá estas coisas nos livros e outras muitas que os fiéis devem saber, para não cairem em pecado.
Toca a deitar."
Nesta era da usura da imagem, em que, muitas vezes, acabamos por ficar incapacitados de ver para além dela, o Natal faz-nos (faz-me) regressar a esses tempos de um universo mitológico de explicações claras para tudo, que nos permitia "ver estas coisas nos livros" e na vida.
Depois de ter saído desse universo há muitos anos, sinto-me feliz por a ele poder voltar. Nem que seja...um dia por ano!

quinta-feira, dezembro 23, 2004

MAIS UMA "ILHA NOVA" ?

Um dos acontecimentos que traduz uma das atitudes marcantes dos açorianos perante as limitações físicas e vitais da sua realidade circundante, foi a busca, durante séculos, de uma "ilha nova".
Na minha opinião, esta busca persiste. Para a Região e para a maioria dos seus habitantes.
Para mim, ter entrado neste mundo da blogolândia regional, acabou por ser a descoberta de uma "ilha nova" que um grupo de açorianos, dia-a-dia mais alargado, está construindo.
Confesso que fui agradavelmente surpreendido com algumas das regras que vim encontrar nesta cibernética "ilha nova".
A primeira delas será a de receber com efusiva hospitalidade e com fraternidade amiga os que vão aportando a esta "ilha".
Pelo menos, foi aquilo que, para meu espanto, me aconteceu.
Poderia, porventura, imaginar que o foguetabrase do Nuno me abraçasse e abrasasse no fogo da sua consideração, amizade e afecto?
Ou que o CHÁ VERDE do Guilherme me escancarasse as portas das grandes expectativas de rasgos futuros, quando eu ainda mal engatinhara no primeiro "post"?
Ou que o Sala de fumo reservasse espaço próprio e de destaque, para manifestar o seu entusiasmo com um texto meu que considerou mais interessante?
O mesmo poderia dizer daqueles que, como o Francisco do ENTRAMULA! e a Rosa Maria do AZORIANA/AÇORIANA vieram reivindicar a sua condição de meus antigos alunos.
O mesmo poderia continuar a dizer daqueles que logo me acolheram nos seus "Linkes". Não menciono nenhum explicitamente, apenas para não omitir alguns que, eu próprio, ainda não terei descoberto.
Não sou tão ingénuo que não perceba que não foram superadas todas as barreiras que, no mundo real, dividem os participantes nesta aventura. Mas não tenho dúvida que algumas delas foram vencidas. No mundo em que vivemos, de exasperação das diferenças e ampliação dos conflitos, este pequeno (ou grande?) passo é de saudar.
Por isto mesmo, não podia deixar passar o dia de hoje, com todos os significados históricos que tem, e com os que cada um de nós, em geral, lhe acrescenta, para assinalar e, pela parte em fui bafejado, agradecer e rejubilar com esta "ilha nova".
Um renovado Natal para todos na "ilha nova" destas velhas ilhas!

terça-feira, dezembro 21, 2004

O VICTOR E A SUA CRUZ

A cruz mais pesada do Victor não é ser Cruz.
É ser Victor. Literalmente Victor. Vencedor. Sempre Vencedor.
Vencedor, quando decide criar uma coligação. Que era mais do que uma coligação. Era um movimento. Para todos os açorianos.
Não coligou o PP para a campanha, nem movimentou os açorianos para o voto. Mas o Victor continuou Victor. Literalmente Victor.Vencedor. Sempre Vencedor.
Vencedor, quando se demite na noite das eleições. Por sentido de responsabilidade.
Vencedor, quando regressa para se recandidatar ao cargo de que se demitiu. Por igual sentido de responsabilidade.
Vencedor, quando se candidata à Assembleia Regional. Vencedor, quando se candidata à Assembleia da República. Vencedor, quando se ausenta da Assembleia Regional por causa da Assembleia da República. Vencedor, quando se ausenta da Assembleia da República por causa da Assembleia Regional. Vencedor, quando só aparece na Assembleia da República para colher o que outros semearam.Vencedor, quando não aparece na Assembleia Regional, porque aí nada havia para colher, porque não houve ninguém que tivesse capacidade de semear para ele. Mas ele é o Victor. Literalmente Victor. O Vencedor.
Vencedor, nos Açores, quando construiu o seu PSD sobre os pés de barro de uma geração de delfins. Vencedor, no continente, quando aceitou ser Vice do PSD de Santana em troca de um fugaz momento televisivo. Como líder demissionário, nada nem ninguém representava dos Açores. Passou a não representar nada nem ninguém no PSD nacional.
Nos Açores, reduziu um partido, outrora, hegemónico na sociedade açoriana, a uma facção. No continente, só se podia sentir bem, noutra facção. A que está a meio caminho entre os santanistas e as santanetes. Mas ele é Victor. Literalmente Victor. Sempre Vencedor. Para sempre Vencedor.
Vencedor, porque conseguiu iludir metade da sociedade açoriana com as suas perspectivas de vitória, solidamente fundadas na opinião publicada e nas sondagens apropriadas. Vencedor, porque, depois de derrotado, consegue iludir o seu próprio partido de que continua vencedor.Victor. Literalmente Victor. O Vencedor. Ele próprio é o seu arco e o seu triunfo.
Mas que Cruz, Victor!

segunda-feira, dezembro 20, 2004

NUNCA DIGAS DESTA GRALHA NÃO BEBEREI!

De especial menção são merecedoras as gralhas em títulos. Eis um exemplo notável de um credenciado e respeitável órgão da imprensa local. No mesmo rasgo jornalístico conseguiu-se a imagem do dia e a gralha do ano!




O seu êxito mais que assegurado levou à decisão editorial de consagrar o singular fenómeno em obra apropriada.

É como segue a descrição completa da ficha de identificação do espécime bibliográfico e inseparáveis gralhas.


Largas Gralhas Têm 100 Anos

Autabiografia de Pinta da Costa


Preço: EURA 25,00
Editor: A'NIÃO GRÁFICA ANGRENSA
Ano de Ediçã: 2004(duas mil e quatra)
N.ª de Páginas: 250
Encadernaçã: Capa Mal
Dimensães: 17x24 cm

Aquela jornalística imagem do dia viu a luz pública no passado dia 8 do corrente. No dia 14, o mesmo reputado órgão tentava uma réplica. Saiu menos brilhante, mas também justifica honrosa menção .

Temos de reconhecer que se trata de um saboroso título! É gostoso e degustativo!

E depois não digam que eu ando a promover uma monumental caçada bloguística às gralhas jornalísticas! Elas é que nos atacam as papilas e as pupilas!

quinta-feira, dezembro 16, 2004

GRALHAS INSOLENTES OU ERROS IMPERDOÁVEIS?

Tenho de reconhecer que as gralhas me incomodam particularmente. Se for num texto meu, além de me incomodarem, envergonham-me, diminuem-me aos meus prórios próprios olhos e aos dos outros.
Mal comparando, sou talvez mais tolerante para um deslize na expressão ou no pensamento do que para uma gralha.
Porque, instintivamente, devo pensar que todo o erro é desculpável. Até o cometido por má fé ou preconceito? Até esse.
Mas a maldita gralha, sobretudo, em textos que, como são, (ou deviam ser) todos os publicados depois de passarem pelo crivo de vários profissionais e chegarem às mãos de um cliente, que só os compra e os paga porque confia nesse pressuposto do profissionalismo atento e rigoroso.
Com esta mania, como se deve calcular, tenho dias com desilusões especialmente amargas.
Imagine-se que, outro dia, comprei um livro, que há muito tempo ando para ler. O Jogo das Contas de Vidro, do Hermann Hesse.
Trata-se de uma 5ª edição, com data de 2003, da Dom Quixote (a 1ª foi em 1989).
A própria capa traz, quase como antetítulo do livro, Prémio Nobel de Literatura. Cria-se, assim, à partida, um clima de inevitável exigência e rigor.
Infelizmente, desmentido na terceira página da obra. E logo no índice. Que não pode dispensar especiais cuidados.
Somos agredidos por uma monumental gralha, num texto em que se diz, em duas linhas: Na primeira, O Jogo das Contas de Vidro. Na segunda: Introdução à Sua História num Estado ao alcance de Todos.
Quem não advertir que se trata de uma gralha, repito, absolutamente imperdoável numa obra destas em 5ª edição, terá uma grande desilusão, ao verificar na página 6, que repete, em destaque, no meio da página: O Jogo Das Contas de Vidro, Introdução à sua História num Estudo ao Alcance de Todos. É uma simples vogal, poderá dizer-se. Mas que abismo entre um Estado e um Estudo, terá de reconhecer-se!
Note-se que, nestas palavras, todos os pormenores contam, até a simples distribuição entre maísculas e minúsculas. O própria próprio tema da obra a isto obriga. Mas, como se pode verificar, nem a este aspecto se dedicou grande atenção.
Malditas Gralhas! Ou maldito quem nelas cai, uma, duas, três vezes ?
Mais há mais ainda. Na mesma página 3. No mesmo índice, escreve-se: Os Três Curricula. Nem mais.
Ora bem. Ou se escrevia em português escorreito : Os Três Currículos. Ou se recorria ao termo latino "curriculum". Mas, neste caso, dizem as boas regras que este estrangeirismo deve ser tratado como uma palavra indeclinável. Por isto mesmo, sempre "curriculum". Quer seja um... três...ou uma centena...
É verdade que se tornou, hoje, corrente, quando se frequentam reuniões em todas as latitudes do globo, falar da presença de alguém em vários "fora". Estando a referir-se ao plural de "forum". Também neste caso se trata de erudição a mais e de português a menos.
Não vá este já longo "post", sem mais uma observação .
Esse aziago dia ainda ficou marcado pela agressão de mais duas gralhas de um respeitável "jornal de referência" da imprensa regional. No próximo desabafo bloguístico falarei disto mesmo.

terça-feira, dezembro 14, 2004

OS CAVALOS DOS CORREIOS CORREM MESMO?

Os dois alados equinos desta sugestiva gravura bem podiam ser a imagem de marca dos nossos CTT. Mas nunca foram. Nem são. E tenho algumas dúvidas que algum dia venham a ser. Explico a previsão e algumas das circunstâncias que me levam a continuar com este tema.
Não. Não se trata de nenhuma obsessão. Muito menos de uma campanha.
Apenas acontece que ontem tive de voltar aos CTT de Angra para o envio de mais uma insignificante carta.
A cena foi a habitual. A mesma máquina da senha. A mesma grande distância entre o número que ela me destinava, (0463) e o número do quadro eletrónico do cliente a ser atendido (o435) naquele momento (15h18).
Mais ou menos o mesmo número médio, constante, de 20 pessoas dispersas pela sala. Excepto os seis felizardos contemplados com os únicos escassos lugares sentados de que dispõe o moderno e vistoso mobiliário da sala.
A mesma expressão de irritação mal contida dos utentes que vinham entrando, perante a abissal diferença entre o número premiado, que a máquina lhes ofertava e o número real a ser atendido e que lhes ditava a sentença de mais de meia hora de fatal espera pela sua vez. A minha chegou pelas 15h50. Nada mau. Para os censuravelmente apressados tempos que correm no século XXI. Apenas 32 minutos! Só mais um minuto do que da última vez!
O curioso é que a larga maioria dos clientes tinha todo o aspecto de já terem entrado no novo milénio. Os CTT de Angra é que, aparentemente, não.
Com efeito, em vez dos três funcionários nos 6 guichés, que encontrara da última vez, agora eram mesmo 6.
Isto quer dizer que vi mais funcionários! Mas não vi nenhum equipamento do tipo das balanças que qualquer vulgar mercearia de qualquer ruralíssima freguesia dos Açores dispõe, para indicar automáticamente o peso e o preço dos mais variados produtos.
Será verdade mesmo, que tais maravilhas da técnica actual não são adaptáveis a um serviço postal com uma gama muito inferior de produtos e de funções do que qualquer humilde mercearia? E a que o utente, que não estivesse interessado no contacto personalizado com o funcionário, pudesse aceder.
Não acredito que tais máquinas não existam e menos ainda acredito que os nossos CTT não as usem ou não tenham planos para a sua aplicação. Resta-me perguntar, porque não chegaram aos CTT de Angra, que acabam de sair de uma profunda remodelação?
Penso que seria de exigir mais que apenas dois alados equinos voando...para o passado.

domingo, dezembro 12, 2004

...O SERVIÇO NORMAL É QUE AFECTA

Greve dos CTT não afectou os utentes, diz convictamente a Administração .
Posso testemunhar, com dois exemplos recentes, que o funcionamento dos serviços dos CTT, em dias normais, é que afecta, e muito, os seus utentes.
Há cerca de um mês, enviei documentação da Terceira para S.Miguel, em correio azul, porque me garantiram aos balcões dos CTT em Angra que, no dia seguinte, ela seria entregue no seu destino.
Cinco(5) dias depois, recebi a confirmação telefónica que a haviam acabado de receber! Resignei-me, pensando que a frágil cartinha teve de vencer a "distância histórica" que os séculos cavaram entre a Terceira e S.Miguel. Se calhar essa modalidade de correio azul, apenas significa a exigência de uma escala técnica na ilha da dita cor! Sempre o peso da História!
Alguns dias depois, tive de voltar à mesma Estação, para enviar, de novo, correspondência. Dirigi-me à moderníssima máquina que distribui as senhas de acesso aos serviços. A senha que me coube em sorte certificava, com todo o rigor, a hora a que a levantara ( 14h12) e o meu número de atendimento(224). Nesse momento, pude ver, num cintilante quadro electrónico, que estava a ser atendido o cliente 205.
Preparei-me para uma paciente espera, em face de um balcão com 6 guichés de atendimento, servido por três funcionários.
Assinalei na já referida senha, as 14h43,(uma comprida meia hora depois!) em que fui atendido, para expedir uma simples carta para Lisboa. Prevenindo o risco da tal volta pelo Faial, expedi-a em correio normal.
Espero que lá tenha chegado no dia da greve! Como utente crédulo e confiante, assim não serei afectado pela anomalia normal dos serviços dos CTT!

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quarta-feira, dezembro 08, 2004

A MUSICA SALVA

"Música-Esperança" é uma ONG que administra a "Orquestra Para A Paz", constituída por árabes e israelitas e que tem actuado, para além do Médio Oriente, em prisões, hospitais e bairros da lata por todo o mundo.
É dirigida pelo pianista argentino Miguel Ângelo Estrella que trocou uma prometedora carreira artística nos circuitos comerciais internacionais por este testemunho permanente de convivência humana e musical para além das divisões da religião e do nascimento.
Actualmente em digressão por França, posto perante a questão da utilidade para a paz desse testemunho de convivência através da música, respondeu:
"Não sou um angelical ingénuo. As coisas são complementares. A orquestra limita-se a dar concertos e a ser a reunião de músicos vindos de horizontes diversos e proporciona contactos extemamente fecundos com os mais variados públicos.
A paz é possível. A segurança em Israel é possível. Um verdadeiro Estado palestiniano é possível.
É multiplicando as pressões que se chegará a tudo isto. Entre outras, aquelas que a Europa pode exercer.
Não se pode deixar a paz só nas mãos de homens como Sharon e Bush.
A nossa próxima missão é reconstruir a vida musical na Palestina. Este objectivo é vital. Na América Latina, onde a Música Esperança trabalha há mais de vinte anos, não há um só jovem das favelas com preparação musical que tenha caído na droga, no álcool, nas seitas ou na prostituição. Nem um único. A música salva".
Neste dia 8 de Dezembro em que, em Portugal, se vive a comemoração de um mistério que transcende as leis da natureza, não será de todo despropositado lembrar o exemplo de uma fé profunda na capacidade do espirito humano para superar o que parece ser apenas a força dos preconceitos sociais entre pessoas e povos.
Que o possível, se faça!
Posted by Hello

terça-feira, dezembro 07, 2004

AFINAL, NEM GANHOU A PRIMEIRA PÁGINA

Afinal, só quando li a edição impressa do EXPRESSO é que vi que tinha presumido, em excesso, do impacto da atitude de Mota Amaral, ao tentar dar o primeiro passo para Belém.
Não chegou à primeira página do EXPRESSO.
Está apenas entre os mais comentados.
Não deixa de ser um lugar honroso.
Mas convenhamos que, para um jornal que se está a especializar no lançamento dos candidatos presidenciais da direita portuguesa, revela que a cotação de Mota Amaral naquele campeonato o mantêm apenas na divisão de honra.
Está sómente a mudar, dos humildes campos de futebol regional, que, em situações anteriores, ritualmente o catapultavam para estes campeonatos presidenciais, para um Estádio de dimensão nacional.
É um progresso, sem dúvida. Mas limitado.
Acrescente-se ainda que, ao reflectir no teor da notícia da edição impressa do jornal, confirmei uma certeza e ganhei uma dúvida.
A certeza é que, o sapiente Expresso, ao classificar o ocorrido de "LAPSO PROTOCOLAR", confirma que, do ponto de vista jurídico e formal, o Presidente da República não tinha qualquer obrigação de dar conhecimento antecipado a Mota Amaral de uma decisão ainda não tomada, embora respeitante à Assembleia a que preside.
A dúvida nova é a de saber, neste episódio da ida de Mota Amaral a Belém, quem é que salvou a face de quem?
A gafe presidencial histórica, não terá sido do Presidente da Assembleia que, ao saber pelos jornais, das diligências do Presidente da Republica para convocar o Conselho de Estado e ouvir os Partidos, se precipitou a considerar a Assembleia "ferida de morte" e a pretender enterrá-la sem demora? E que, depois da ida a Belém, como salienta o Expresso, "arrepiou caminho e se apresentou na conferência de líderes, ao início da tarde, com a firme determinação de que esta AR aproveite o melhor possível o tempo que lhe sobra"?
A quem considere, de leão, a entrada de Mota Amaral, naquela ida a Belém, como é que deve considerar aquela saída de quem "arrepia caminho"?

segunda-feira, dezembro 06, 2004

LIVROS COM AUTOR

Acontece. Com estes "postes" levantados ao sabor da última impressão. E as impressões mais fortes de hoje vieram-me de notícias sobre livros. É verdade. Não dos próprios livros. Que ainda não li. Como foi o caso do livro do "post"anterior. E vai voltar a ser a situação dos dois de que falo a seguir.
De facto, quem que é pode resistir a anunciar aos sete ventos da blogolândia, que acaba de ler o comentário a um livro sobre um pedagogo do século XIX (1770-1840) de nome Joseph Jacotot, cujo lema era:
"Ensinar sem emancipar é embrutecer".
E que dizia que o objectivo do seu método pedagógico era:
"Que todo o homem do povo possa conceber e atingir a sua dignidade de homem, conhecer a medida da sua capacidade intelectual e decidir sobre o seu uso".
Mas o mais espantoso e revolucionário era o próprio método que defendia e aplicava. O método do "mestre ignorante" e que partia do princípio que se pode ensinar mesmo aquilo que se ignora. Só é necessário ser capaz de levar o aluno a usar da sua própria inteligência.
Não. Não se trata da velha teoria da reminiscência com raízes em Sócrates e Platão. Até porque ele também afirmava que:
"A instrução é como a liberdade. Não se recebe, conquista-se".
Seja como for, vou já a correr para uma livraria "on line," para encomendar
"Le Maitre Ignorant"(cinq leçons sur l'émancipation intellectuelle). Autor: Jacques Ranciére.
Se alguém se decidir a fazer o mesmo, poderemos, depois, blogar sobre o tema.
O outro livro já está traduzido em português. É de Dominique Wolton. Um nome muito conhecido de quem se interessa pelos problemas da informação e da comunicação nas sociedades modernas. Tem por título "A Outra Globalização". Apenas direi que o seu primeiro capítulo tem por tema"Informar não é comunicar". O que, só por si, nos poderia levar de volta a Joseph Jacotot. Mas não serei eu que o farei. Pelo menos, por agora.


O ANONIMATO MEDIÁTICO

Não resisto a deixar aqui registada uma notícia lida num dos órgãos de informação regional, há poucas semanas, e que considero uma nova modalidade de atingir o anonimato: ser notícia nos jornais.

Transcrevo literalmente, título incluido:
"Em Lisboa
Professor da UA
lança livro
Em co-autoria com dois colegas de doutoramento, o docente do Departamento de Economia e Gestão da Universidade dos Açores lançou, a nível nacional, um livro sobre a avaliação de projectos de investimento.
Com o título "Avaliação de Projectos - Da Análise Tradicional às Opções Reais", e publicação da editora Publisher Team, o livro propõe-se oferecer, a quem prepara, analisa ou decide sobre projectos de investimento, um instrumento de trabalho abrangente e actual.
Na obra não faltam os contributos teóricos mais recentes para a resolução de algumas áreas menos aclaradas e praticadas no exercício da análise de projectos. É o caso do campo metodológico relacionado com o risco e de todo o domínio teórico e prático dos modelos de avaliação de opções reais. Sendo a avaliação de projectos de investimento um exercício assente em estimativas sobre o futuro e em expectactivas sobre comportamentos, compreende-se o alcance da difusão dos avanços que se façam em matéria de incerteza e de opções, de modo a fundamentar as decisões em bases de "risco calculado" e a racionalizar as escolhas."
Alguém, melhor informado do que eu, me poderá dar aquilo que a notícia me recusa, isto é, o nome do autor escondido... com o título de fora?

sábado, dezembro 04, 2004

COM TRATOS

Depois de uma manhã dedicada a espraiar o olhar por incontáveis quilómetros de terra verde e céu de cinzentas nuvens, enquanto desentorpecia os enferrujados músculos por meia duzia de quilómetros de asfalto, posso voltar ao blog.
Desde o início desta caseira aventura bloguística, ontem foi o primeiro dia que não "postei". Não é que não tenha queimado algumas horas aos tratos com o blog e acessórios. Os últimos dias têm sido uma longa luta, esforçada sempre mas às vezes inglória, contra o meu crónico analfabetismo informático, contra os trambolhões na internet e a minha caloirice blogueira.
Resultado: produtividade bem à portuguesa. Dois dias para conseguir instalar o "site meter". Mas consegui. E fui premiado com a alegria do analfabeto que soletra mais uma palavra.

quinta-feira, dezembro 02, 2004

SAMPAIO - O DEFENESTRADOR

  • Nas defenestrações físicas com lugar na história (a de Praga em 1618, a de Lisboa em 1640) o nome dos defenestradores não chega a saltar para as páginas da história. Este lugar é ocupado pelo defenestrados. O salto pela janela é um salto para a história. Nas defenestrações simbólicas costuma acontecer o contrário. A queda pela janela é uma queda no esquecimento histórico. O nome do defenestrador é que fica na história. No caso de Santana e de Sampaio penso que também assim será.
  • Sampaio deve-me uma desculpa pelo que fez em Julho, empossando Santana Lopes como primeiro Ministro. Eu devo uma desculpa a Sampaio, porque nunca acreditei que ele recuperasse, em Novembro, o fôlego do semi presidencialismo que lhe faleceu em Julho. Estamos quites.
  • Em Julho, Sampaio agiu como Presidente em regime puramente parlamentar. Foi o seu momento de Rainha de Inglaterra. Com actuação de Presidente meramente simbólico e discurso de cariz semi-presidencialista. Hoje, limito-me a aceitar tudo o que maioria quiser. Amanhã, poderei exigir o direito de inventário que já hoje me assiste. O amanhã semi-presidencialista chegou... pelo entardecer de terça feira.

quarta-feira, dezembro 01, 2004

PENSAMENTOS AVULSOS SOBRE A DEFENESTRAÇÃO DE SANTANA

  • Santana Lopes terá direito a ser incluído na elite restrita dos pequenos-grandes defenestrados da história política?
  • Pelo menos, metaforicamente, pode afirmar-se que Santana Lopes chegou ao poder pela porta larga das grandes questões ( défice de legitimidade partidária e eleitoral, défice de imagem como político e como pessoa, etc.) e saiu pela janela estreita das pequenas questões (a demissão de um comentador de uma televisão e a demissão de um ministro...importante apenas quando deixou de o ser).
  • A história continua a ser comandada pelos "narizes de Cleópatra". Se Cavaco Silva não tivesse escrito um artigo para o Expresso do último sábado; se o Ministro Henrique Chaves se tivesse demitido, mas não tivesse enviado para as redacções dos órgãos de comunicação social a "bomba" do comunicado; se Santana Lopes não tivesse pedido o adiamento de uma tomada de posse por causa de uma simples festa de casamento; se outras mil e uma leves "sardinhas"não se tivessem vindo a acumular, como carga mal estivada, no porão da frágil nau governativa de Santana; Se... se... se... se... se... coisas cada vez menos graves não tivessem sido o pão de todos os dias que Santana serviu a um país atónito durante 4 meses, provavelmente, hoje, dia um de Dezembro, Santana Lopes estaria de malas aviadas para a Turquia... a ajudar a dilatar a fé e o império entre os infieis.
  • Ninguém sabe para que serviu, politicamente, a corte de muitas "Santanetes" que borboletearam junto de Santana nos dias do poder. Toda a gente sabe para que serviram os fieis "Santanistas" de sempre, como Rui Gomes da Silva e Henrique Chaves. Para precipitarem a sua saída do poder. Cumpriram o fadário de todos os homens de mão que vegetam na sombra dos líderes. Sombras úteis para a conquista do poder. Sombras maléficas para o seu exercício. Por isto mesmo, os líderes ou se desfazem deles a tempo ou são as suas primeiras vítimas.